CAPÍTULO V
Atividades Eclesiásticas
Vovó costumava levar Cecil e eu à igreja e me lembro bem
da afetada ordem interna do velho templo Congressional. Vovó vestia-se
num elegante vestido de rendas de cor discreta, como convinha ao dia de
repouso semanal na Nova Inglaterra.
A população da cidade, homens, mulheres e crianças,
deslizavam silenciosamente pelos corredores laterais da nave e penetrava,
respeitosa, por entre fileiras de poltronas estofadas, para tomar lugar
e cumprir sua função, no coro, ou na cooperação
do culto ou, enfim, para que pudesse concentrar-se profundamente nas orações
e também, para, de quando em quando, dar longas cochiladas.
Todos se esmeravam para não tomar quaisquer atitudes impróprias
ou desrespeitosas na igreja. Era a casa de Deus. Nem mesmo era permitido
que alguém se virasse para cumprimentar um amigo discretamente.
Aos sábados à noite tínhamos que ir à bacia
d'água morna, lavarmo-nos com muita esfregação para
tirar as cracas dos joelhos, dos pés e do pescoço. Aos domingos,
de manhã, vestidos, convenientemente, em roupa limpa e nova, íamos
à igreja assistir ao culto e à escola dominical. Depois disso,
quando voltássemos, podíamos sacar fora os "impedimentos",
então desnecessários, vestir roupas comuns e traquinar, dentro
de certos limites permitidos. Podíamos circular pelo pomar e comer
as frutas aí produzidas, na estação. Era permitido
ler mas não correr ou pular, a menos que o fizéssemos longe
dali, escondidos. Sair para fora dos nossos limites ou receber amigos era
proibido. Aliás, proibição desnecessária, pois
os amigos também estavam impedidos de sair de suas casas.
Quando nossos primos de Rutland estavam de visita, claro que tínhamos
permissão de brincar com eles. Na Nova Inglaterra daqueles dias,
as crianças, aos domingos, eram promovidas a gente adulta. As artes
infantis e as correrias alegres eram legítimas, apenas nas outros
dias da semana. No entretanto, não me lembro de haver tido um domingo
aborrecido. Eu os aproveitava para planejar minhas atividades para a semana
seguinte.
O reverendo Walker era o ministro da nossa igreja. A sua longa e
espessa barba branca parecia qualifica-lo à atividade santificada.
Até hoje, quando alguém se refere aos profetas dos tempos
primitivos, vem-me à memória visual a imagem do reverendo
Aldace Walker nas suas roupas esvoaçantes, de cântaro na mão
em direção à fonte da cidade para abastecer-se de
água fresca. Ele era reverenciado por toda a população
da comunidade.
O reverendo Walker foi substituído pelo reverendo Elija Huntoon
e este, a seguir, pelo reverendo Gamaliel Dillinham, que deve ter sido
um santo homem a julgar pela extensão dos seus sermões e
orações e pela solenidade com que se apresentava. Tinha,
por hábito iniciar seu culto de domingo, pela manhã, abençoando
todas as pessoas que exerciam autoridade. Começava pelo presidente
da República e descia por toda a escala governamental da república.
Depois passava para as autoridades estaduais e municipais. Para maior segurança,
incluía alguns reis e rainhas. Era surpreendente o número
de notabilidades da sua lista e a sua prodigalidade na distribuição
de bênçãos. Se Deus se esquecesse de algumas teria
de assumir a responsabilidade pela falta.
Um apóstata, Dane Foley, empregado da Sra. Ranne deu mostras de
praticidade quando indagou:
- Porque, em nome dos céus, o reverendo Gamaliel não abrevia:
Que Deus abençoe todos os pretos, os brancos, os verdes e os amarelos?
Dispensado das exigências da patroa, Dannie jamais assistiria aos
ofícios religiosos. Mas a sua presença à Igreja era
obrigatória e ele a isso se sujeitava disciplinadamente. Se fosse
chamado, ele abreviaria enormemente e de muita boa vontade o trabalho do
reverendo Gamaliel. Ouvi, certa vez, uma sua solene afirmação
de que os sermões do reverendo eram uma ameaça de esvaziamento
do país, pois eram mais devastadores do que quaisquer tempestades
ou inundações. O meu julgamento pessoal se inclinava bastante
por aprovar o de Dannie.
Não me lembro do que os ministros da nossa Igreja diziam, quando
eu era menino. Seus sermões estavam além da minha capacidade
de compreensão mas eu gostava de cantar no nosso quarteto, que era
melhor do que poderia esperar-se. Além disso, os meus pensamentos
no silêncio e solenidade da Igreja teriam sido muito mais elevados
do que se eu estivesse em qualquer outro lugar. Ali havia uma sensação
acentuada de paz e bem estar.
Minha imaginação costumava elevar-se às alturas
para exaltar os feitos de Frank Nelson descritos em "Frank num Navio de
Guerra" e o meu coração palpitava pelo velho e bom escravo
Cudjoe, nos acontecimentos temerários em que encontrava, conforme
a história excitante, "A Caverna de Cudjoe". O amargor da minha
vida era o fato de a Natureza não me haver dotado de romantismo.
Eu me propunha a esforçar-me para que um dia pudesse praticar feitos
dignos de registro. Eu seria, no futuro, soldado, marinheiro ou, no mínimo,
maquinista de trem. Poderia, no futuro, ter o privilégio de brilhar
nos campos de batalha ou navegar por mares tempestuosos e, depois, voltar
a Wallingford em uniformes de botões dourados e dragonas, que deslumbrariam
as moças e eu, de cabeça erguida, indiferente e cônscio
do meu valor e da justa razão da minha condição de
herói. Tais devaneios, sem nenhuma conexão com os sermões
do reverendo Gamaliel, eram apenas estimulados por eles. Assistindo às
suas atitudes solenes, muitas vezes eu o imaginava um selvagem de Borneo
ou coisa parecida. Indiscutivelmente, a Igreja influenciava fortemente
a imaginação de todos os que a freqüentavam.
Raramente o espírito de reverência se instalava em mim. Então,
sentado na poltrona da família, entre meus avós, eu permanecia
quieto e aparentemente atento. Mas, na verdade, meus pensamentos corriam
as montanhas e os meus olhos estavam fixo, através da janela, nas
árvores, lá fora, apreciando o farfalhar das suas folhas
e, ocasionalmente os passarinhos brincando ou cantando, em liberdade, inscientes
de que era domingo e que o reverendo Gamaliel estava se esforçando
para atingir o botão que acenderia a luz nas almas das suas ovelhas.
Aqueles passarinhos eram, isto, sim, incorrigíveis pagãos!
Havia, no ambiente da Igreja, a legítima característica da
Nova Inglaterra, expressa pelo apuro com que as mulheres se apresentavam
vestidas e pela fragrância do ar, perfumado pelas essências
com que todas elas se espargiam. Se a limpeza e o capricho aproximam as
pessoas de Deus, as mulheres da Nova Inglaterra devem estar entre as eleitas.
Vovó tinha a sua toalete permanentemente pronta para as ocasiões
de freqüentar a Igreja. Seu vestido de seda preta com os respectivos
ornamentos pareciam especialmente próprios para as manhãs
de domingo. Ele serviu por muitos anos, como, também, o terno e
o sobretudo de vovô, sua indumentária para reuniões
e conferências.
Se vovó possuía um chale Paisley? Claro que o possuía!
Ela e mais todas as mulheres, cujos maridos tivessem a possibilidade de
comprar um. Tia Mel estava na categoria. Os chales PaisLey eram insígnia
de distinção. Tia Mel tinha, ainda, um casaco de peles, que
lhe fora dado por vovô. Tia Lib também tinha um, que mais
tarde foi legado à prima Mary. . . Dois casacos de pele na família!
Que distinção, meu Deus!
A roupa de uso diário de vovô era limpa e bem cuidada, embora,
é evidente, bastante surrada. Seu sobretudo de uso diário
era conhecidíssimo na comunidade. Um rapaz maior e mais velho do
que eu, certo dia, zombou:
- Lá vem o velho Harris com seu sobretudo cor de rato! Se eu fosse
da idade dele e mais fortinho, teria lhe quebrado a cara!
Ninguém sabia melhor do que eu porque vovô cuidava das suas
roupas a fim de aumentar-lhes a durabilidade. Ninguém sabia melhor
do que eu que a frugalidade característica da sua vida tinha uma
razão forte de sustentação: o propósito de
proteger a sua gente, as pessoas que ele amava.
Vovó era a responsável pela aparência digna de vovô
e pela minha, nas manhãs de domingo, na Igreja. Uma das visões
domésticas, lá em casa, era a de vovó inspecionando
e esfregando, com um pano molhado e ensaboado, o pescoço de vovô
e engraxando as suas botinas, com gordura de galinha, que amaciavam-nas
e davam-lhes brilho. Nesta tarefa podia-se notar que ela tinha um dos seus
pulsos imobilizado. Por um acidente, provavelmente. Nunca ninguém
ouvia dela qualquer menção a isso. Tenho, até, a impressão
de que ela alimentava um certo orgulho por aquele aleijão.
Se eu tossisse durante o serviço religioso, vovó passava-me
um pedacinho de um preparado solúvel que ela mesma fazia. Açúcar
e uma raiz qualquer. O açúcar amenizava o amargor profundo
da raiz. Mas o carinho e a bondade da velhinha deixavam, na droga, uma
doçura especial. Aquela tossinha ainda hoje, volta, especialmente
na Igreja. Mas hoje são outras mãos carinhosas que mergulham
em recônditos esconderijos e emergem com os extintores da tosse.
São as mãos de minha escocesa querida, a boníssima
Jean.
Nos últimos tempos de vida de Vovô, ele dormitava durante
o sermão. A voz monocórdica e grave do ministro contribuía
bastante para isso. Tomei, voluntariamente, a tarefa de mantê-lo
acordado durante o tempo integral do ofício religioso. Para exercer
tal obrigação com eficiência e recato eu dobrava as
pernas, sentado, de tal modo a poder cutucar, com o dedão, as canelas
dele que, de indústria, estariam colocadas a jeito. Meu dedão
funcionava um sem número de vezes enquanto se desenvolvia o aborrecido
discurso. Lembrando, hoje, dessa minha obrigação, chego a
pensar que a exercia um tanto automaticamente e que, com isso, obriguei
vovô a escutar muita coisa dispensável das piedosas lengalengas
do ministro. Muitas e muitas vezes seria preferível que ele repousasse
naqueles cochilos incoercíveis.
Havia dois dias santos que eram respeitados: o dia de ação
de graças e o dia de jejum. Os ofícios religiosos correspondentes
eram realizados pela manhã, na hora do costume. Aprendíamos
o quanto e porque devíamos agradecer a Deus. Mas jamais ouvi qualquer
justificativa para encerrar o dia de ação de graças,
como clímax da comemoração, com um majestoso jantar
de peru.
Acho que pelo menos deveria haver alguma explicação para
o costume de haver, como parte das comemorações, o "tiro
à galinha e ao peru". Era uma tômbola que consistia em um
concurso de tiro ao alvo às próprias aves nominadas.
Cada tiro à galinha custava 10 centavos de dólar. Ao peru,
25 centavos. Quem acertasse o tiro ganhava o prêmio respectivo: um
exemplar vivo de galinha ou peru.
Alguns cúpidos fazendeiros, percebendo não haver nenhuma
proibição pelos preceitos da Igreja, criaram esse sistema
de comercialização rendosa das suas aves, ao verificarem
que pouca gente tinha capacidade de acertar os alvos. As aves eram postas
para serem atingidas numa rampa, a uma distância que a mim parecia
muitos quilômetros. Os bons atiradores ganhavam, de pronto, suas
aves, mas ficavam impedidos de atirar daí por diante. Os outros
iam, aos poucos, desovando os seus "dimes" (1) e "quarters" em favor dos
empresários da tômbola.
O dia do jejum tinha perdido muitos dos seus rigores dos tempos coloniais.
De fato, os banquetes do dia de jejum eram a sua principal característica.
Como aconteciam à noite, depois da cerimônia religiosa (quando
os participantes estavam famintos), sabiam excelentemente. Da minha parte,
eu me deliciava com eles... Pensava mesmo que eram a fase mais importante
das comemorações. Na minha opinião podiam-se até
suprimir os serviços religiosos. . . dos quais, sempre que podia,
eu fugia.
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( 1 ) "Dime": denominação popular da moeda de 10 centavos.
"Quarter": denominação de 25 centavos de dólar. -
(N. do T.)