Os Medonhos
Quando os rapazes chegam à adolescência operam-se neles alterações
de natureza biológica, que se refletem, muitas vezes, diabolicamente,
no comportamento.
Mesmo os pais e mães corujas freqüentemente passam a duvidar
se o júnior seria um bom padre, como eles sonhavam, ou se os seus
talentos mostram, apenas, vocação para a patifaria e a malvadez.
Os pais excessivamente dedicados chegam a convencer-se de que será
melhor concordar com o comportamento dos filhos adolescentes do que impor-lhes
orientação oposta às suas tendências.
Jerônimo Hilliard, o fabricante de carroças, indubitavelmente
a nossa mais credenciada autoridade em terminologia, não excetuando
nem mesmo o Sr. "civilizado" Johnson, cuja conversação era
a mais burilada mas menos expressiva, usava chamar a nossa turma de "medonhos"(1)
e, em verdade, devemos admitir que ele tinha razão.
Os "medonhos" têm passado por grandes transformações
no correr dos tempos mas, em princípio, são sempre os mesmos.
Os palhaços no circo construíram padrões de boa vida
que os "Medonhos" do meu tempo adotavam como se adotam novidades. Mas o
circo só vinha uma vez por ano.
Durante o resto do ano os "Medonhos" inventavam suas próprias artes.
Que ficassem inativos, é inconcebível.
No meu tempo, tínhamos que criar as nossas próprias "artes".
Tínhamos que ser, ao mesmo tempo, autores e atores e, ainda, assistir-nos
aplaudindo. Os adultos pensavam que era porque podíamos correr e
andar, que armávamos as nossas brincadeiras mas aqui estou
para afirmar que isso não está totalmente correto. Se ficássemos
presos, sem nos locomover, ainda inventávamos com que traquinar.
Nossos braços, mãos, dedos, olhos e ouvidos eram capazes
de por as coisas a andar.
Meninos não são criaturas capazes só de criar atos
de travessura. São como cachorrinhos, que mastigam e destroem chapéus
de palha. Os meninos e os cachorrinhos se entendem. Há afinidade
espiritual entre eles: pensam as mesmas coisas ou, pelo menos, num mesmo
sentido, experimentam os mesmos brinquedos e, sob certo ponto de vista,
falam a mesma linguagem. Claro que os meninos são desprovidos do
rabo e, portanto, não podem sacudi-lo. Mas têm outros meios
de demonstrar alegria.
Toda cidade ou comunidade do mundo tem seu grupo de piás travessos.
A gente os vê acompanhados dos seus cães, correndo e pulando
nas ruas, perseguindo-se mutuamente, aos gritos e risos, por toda a parte,
trepando em árvores, em postes, pulando cercas, invadindo quintais,
assustando homens, mulheres, cavalos, vacas e outros animais domésticos.
Sim, são terríveis traquinas e o melhor que se pode fazer
é deixá-los que o sejam.
Esses meninos sabem coisas que não se aprendem em casa, nem na escola,
nem na igreja. Quando o "júnior" manifesta, à mesa, algum
dos seus avançados conhecimentos, mamãe dá um cutucão
no papai ou franze a testa, numa pergunta muda:
"Onde você pensa que este menino aprendeu isso?" E o papai acha que
essa interrupção extrapola a sua criatividade.
Posso dizer, a quem deseje saber, aonde o menino aprende essas coisas imprevistas:
é com os seus companheiros traquinas. Essa miudalha sabe coisas
que os mais velhos nem imaginam. A miudalha nem mesmo distingue as coisas
dos homens das de Deus.
Por exemplo, a miudalha sabe - e mesmo gente mais crescida deve saber -
que as árvores se comunicam entre si numa linguagem lá delas.
No começo do outono de cada ano, as árvores levantam suas
cabeleiras e elaboram juntas os planos do espetáculo que esperam
apresentar no início do inverno, para agradar a gente boa dos arredores.
Cada árvore, de acordo com sua espécie, assume um papel.
O majestoso carvalho, associado com a sumagre, vista ao longe nas baixadas,
pode dar-nos a visão de uma cor de vinho, carregada, que os amantes
da natureza tanto apreciam, as faias, os olmos, as pétulas dão
milhares de tons amarelos e vermelhos, os bordos nunca se limitam a uma
só cor, todas, enfim, enfeitam a floresta, exuberantemente, de uma
gama deslumbrante de cores, em outubro, antes que as folhas murchem e caiam.
Os "medonhos" do nosso vale eram afortunados. A natureza foi pródiga
na distribuição de árvores nas encostas. As variedades
são inúmeras e a mão, que lhes aplica as tintas, é
generosa e hábil.
Depois que a semente germina no solo pedregoso é certo que cresce
sadia e, logo, se apresenta frondosa e exuberante...a chuva e a neve
garantem o suprimento de umidade e o sol funde o gelo da terra no
tempo devido. Gente de outras regiões se admira da perseverança
com que as sementes procuram o lugar apropriado para sua germinação,
entre as pedras. Devemos levar em conta que as sementes são conduzidas
pelo vento, pelas chuvas, pela neve e, no caso das faias, das nogueiras
e dos carvalhos, participam também os nossos auxiliares de quatro
patas, os esquilos. Dentro das suas respectivas esferas, os pássaros,
as abelhas, as formigas e outras criaturas microscópicas cooperam
para manter a ecologia e oferecer ao homem ó privilégio de
viver e gozar as belezas do mundo.
Os pinus, ciprestes, abetos e cedros, frondosos por todo o ano, dão
o tom verde, contrastante com o branco da neve, como testemunho de que,
mesmo sob "frio terrível", existe vida.
No nosso vale as faias eram as árvores mais comuns e ao mesmo tempo,
as mais úteis. Faziam boa sombra em cujo frescor os "medonhos" se
deitavam e sonhavam de coração limpo e consciência
tranqüila. Dão madeira dura, boa lenha e, de sua casca, podia
ser preparado um xarope delicioso, além de que, com o seu brilho
natural, iluminam as montanhas, no outono. As maiores entre as árvores
são os carvalhos. Elas só se curvam durante a tempestade,
e de má vontade. Isso porque devem firmar-se na raiz central (pião),
que mergulha fundo na terra, pois as laterais são superficiais e
algumas até aparentes, sobre o solo.
Os mais sobranceiros são os álamos. Nenhuma árvore
se lhe assemelha, ladeando as estradas ou formando alas de entrada nas
mansões residenciais. Muitos acham que a faia, pela densidade de
presença, é a mais pitoresca e bela de todas as árvores.
Os artistas são, constantemente dominados pelo fascínio das
faias. Algumas espécies de salgueiros pendem, graciosamente, ao
vento e os "medonhos" os procuram porque os brotos tenros, conhecidos por
salgueirinhos, são arautos da primavera e também porque,
com eles, podem os "medonhos" fazer apitos.
Alguns apreciadores da natureza indagam-se porque Deus desveste as árvores
em novembro, quando as gentes se agasalham com mais roupas. Nunca admitir-se-ia
tosquiar ovelhas no outono. Na primavera é que é o tempo
certo.
É uma visão melancólica a das árvores, no inverno,
tão literalmente nuas como os "medonhos", quando mergulham no arroio
Otter no verão. É uma benção, no entanto, que
as folhas mortas. das árvores não sejam enterradas como o
são os humanos mortos.
Os "medonhos" as juntam e amontoam contra o embasamento de madeira das
casas, para conservar os moradores abrigados do vento frio do inverno.
Criança que brinca, alegre e tranqüila,
Que dorme, que sonha e acorda e que ri,
Do corpo saudável, que se rejubila.
De Deus a doação que tomou prá si.
Guri, das tarefas da escola se esquece,
Que da Natureza a ciência se aquece,
Que anda às mãos dadas na vida com ela,
Parceiro animoso e mui tagarela,
Que beija e a envolve em quentes abraços!
Que Deus te abençoe, menino descalço!
Oh, for boyhood pailess play
Sleep that wakes in laughing day
Health that mocks the doctor kules,
Knowledge never learned of schools
For eschewing books and tasks,
Nature answers all he asks;
Hand in hand with her he walks
Face to face with her he talks
Part and parcel of her joy,
Blessings on thee, barefoot boy
Nós os "medonhos" de Wallingford tínhamos que nos conservar
informados de tudo a que se passava na cidade. A barbearia, o correio e
a estação rodoviária eram excelentes centros de informação.
Achávamos, sempre, meio de nos manter informados de tudo o que acontecia
de importante na estrada de ferro. Sabíamos desde o nome dos guarda-freios
até os dos maquinistas, quem, entre eles, mascava fumo e a razão
pela qual os demais não mascavam. Dava, aos "medonhos", um saboroso
senso de poder, o acordar à noite ouvindo o ruído do trem
das duas e meia da madrugada e saber que, nele, estavam os seus companheiros
Jim Gillespie, na alavanca do freio e Jack McGuike, no depósito
de carvão.
Uma vez, um "medonho" meu amigo, que fazia aprendizado na estrada de ferro,
desafiou-me a, às escondidas, viajar no limpa-trilhos do trem das
10:30 da noite, até Manchester e voltar, da mesma forma, no trem
das 2:30 da madrugada. Ele sabia quando o trem das 2:30 fazia escala em
Wallingford, portanto planejou tudo previamente.
Quando o trem das 10:30 estacionasse eu deveria atravessar os trilhos à
frente da locomotiva mas só subir no limpa-trilhos, quando encoberto
das vistas do maquinista, enquanto Willie faria o mesmo, do lado do foguista.
O esquema funcionou perfeitamente.
Fizemos uma viagem emocionante no sereno da noite, sentindo as vibrações
do motor. Que sensação sentimos ao adentrar e sair
das pontes cobertas, nas vizinhanças de Manchester! Enquanto isso,
vovô e vovó dormiam o sono dos justos, sem saber por onde
andava o neto irresponsável! Se algum desocupado houvesse acordado
vovó e lhe dissesse que seu neto querido não estava na cama,
mas em Manchester e que só voltaria às 2:30 viajando sobre
o limpa-trilhos do trem, ela diria que ela ou eu ou o informante ou nós
três estávamos literalmente fora do juízo!
Oh, sim! Os "medonhos" estão sempre fazendo experiências e
aprendem coisas que os mais velhos ignoram. A maioria das suas atividades,
é claro, terão que conservar altamente secretas. Os mais
velhos não as entenderiam, nem mesmo acreditariam nelas. O que,
por exemplo, diria vovó se eu, ao sair, lhe dissesse que não
esperasse por mim, naquela noite memorável em que Willie e eu fizemos
a excursão no limpa-trilhos do trem? O melhor foi agir como agi:
quando o relógio bateu 10 horas pulei a janela, juntei-me a Willie
e lá fomos a Manchester.
Os limpa-trilhos das locomotivas são, hoje, muito pouco conhecidos.
Como o seu nome indica, sua finalidade é empurrar para fora dos
trilhos quaisquer animais ou objetos que, à passagem do trem, porventura
possam estar sobre eles. Nos limpa-trilhos da Estrada de Ferro Benninton
e Rutland havia espaço suficiente para Wallie e para mim. Podíamos,
ali, viajar sentados com certo conforto. No entretanto, se houvesse um
boi na linha, na noite da nossa aventura, teríamos oportunidade
de ter recebido um funeral respeitável, a menos que os ajuntadores
dos nossos restos tivessem, a estes, adicionado alguns pedaços do
boi.
Outras ocasiões que esperávamos, com planos prévios
e com prazer, eram as das orações das sextas feiras da Igreja
Congressional. Havia o canto de hinos contidos no hinário "Moody
and Sankey" e, como o programa, não era organizado previamente,
era uso do líder solicitar sugestões dos presentes. "Pull
for the shore, Pull for the shore" (Marinheiro, puxe para a praia) era
um dos favoritos para nós, os "medonhos", pelo seu caráter
náutico e, principalmente, porque, no coro, imitava-se o bimbalhar
de sino. Então, nós, a título de dar realismo ao ato
de remar para a praia, fazíamos uma algazarra de gritos, o que,
para nós, era uma diversão insuperável.
As mulheres sentavam de um lado e os homens do outro e nós, os "medonhos",
ficávamos no último banco do lado dos homens, aonde tínhamos
a melhor posição para perceber tudo o que acontecia e a menor
probabilidade de sermos observados pelos nossos pais e pelo líder.
O último banco era a nossa posição estratégica,
de onde assistíamos às conferências e entortávamos
alfinetes para colocá-los nos bancos dos adultos. Alfinetes convenientemente
dobrados funcionam melhor do que tachinhas ou percevejos!
Considerava-se de boa prática colocar os alfinetes dobrados nos
bancos à frente dos ocupados por meninas inocentes, as quais seriam
as acusadas pelos atingidos na molecagem e, muitas vezes, teriam seus ouvidos
zunindo por bofetadas educativas! No entanto, o culpado verdadeiro estaria
muito afastado do paroquiano ofendido. Pelo exercício continuado
e inteligente dessas atividades, a gente podia atravessar a temporada isento
de surras ou, até, de ralhações. Claro que se tinha
de aprender controle de emoções, gozar o susto do ofendido
em compostura própria, mostrando-se até escandalizado. Nove
vezes em dez casos, o menino que mais alto ria, por mais inocente que fosse,
era o que mais bofetadas levava. Um "medonho" que se prezasse nunca ria
desses episódios a menos de duas quadras da igreja.
Lembro-me de uma noite em que o Sr. Harlan Strong, nosso superintendente
da escola dominical, arrancou-se do púlpito em que estava, aos fundos
da ala central e veio até o banco em frente ao nosso, agarrar George
Wilder pelas duas orelhas e sacudir-lhe a cabeça de tal modo, que
tivemos a impressão que iria arrancá-la das amarras, naquele
pescocinho fino. O leitor indagará o porque daquele ato ostensivo
e insólito. A intenção do Sr. Strong era fazer, com
as orelhas de George, a mostra permanente de que a igreja não é
o lugar para risos. Mas a pergunta que nós, os "medonhos", fazíamos
silenciosamente era se o Sr. Strong se satisfaria com só um par
de orelhas ou exigiria mais. E, se exigisse, quem seria o portador das
duas seguintes.
Na verdade, George era o único menino inocente do banco. Tudo o
que ele tinha feito, antes do ataques do Sr. Strong, foi rir do paroquiano
espetado e, depois de castigado, foi protestar contra o apaixonado mau
uso da sua cabeça e a afirmar, perante os presentes à igreja,
que o castigo sofrido era injusto e de mau gosto.
Em defesa do ataque do Sr. Harlan, se me for permitido alguma, eu diria
que as orelhas do George eram, de fato, grandes e convidativamente salientes.
Quem quer que tivesse tido o impulso de puxá-las poderia, por isso,
ser perdoado. Teria sido por um impulso humano, por tentação
natural. A única maneira que os pais de George teriam de afastá-la,
seria ter conservado o menino em casa, longe das vistas humanas.
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(1) "Rapscallions" é a palavra inglesa. O tradutor traduziu-a
por "medonhos" que é como os sul-paranaenses do interior usam chamar
os jovens "supradotados" para criar e realizar travessuras. (N. do T.)