CAPÍTULO XI

A Descoberta de uma Lagoa

            Nos saudosos dias da minha  meninice descobri que os esportes e as diversões de inverno são mais emocionantes do que os das outras estações. Nós, meninos, jamais tivemos sequer o medo de uma estação sem atrativos Também não havia ninguém com mais interesse em diversões que nós. Sob quaisquer pretextos nós saíamos, para elas, na chuva ou na neve. Não me lembro  de haver desejado o fim de uma nevada. Pelo contrário, eu desejava que a neve continuasse caindo  e se acumulando a espessuras maiores que todas as já vistas, até que todos os sinais do mundo que eu conhecia fossem, por ela, sepultadas, e um novo, estranho e fantástico  mundo surgisse. Todos os meninos que cresceram no meio rural ou nas pequenas cidades da Nova Inglaterra sentiam o êxtase de presenciar a neve caindo. Para mim "A Nevada" de Whiltier é, e sempre será, o mais fascinante dos poemas. Eis uns fragmentos:

              "Ruge a tempestade pela noite toda
              Vem, depois, o dia brusco: ausente o sol,
              Sem os tons vermelhos, lindos, do arrebol.
              De formas geométricas em leves blocos,
              Em películas de estrelas, caem flocos.
              Por todo o dia o meteoro encanecido
             Veste a terra inteira com desconhecido,
             Sutil manto espesso, branco, imaculado
             Mundo em maravilha, lindo e desolado.

            Depois, o novo dia:
            O horizonte, ao longe, em brilho de acalento,
            Altas paredes azuis do firmamento,
            Nem nuvens no alto, nem terra no chão:
            Neve… Neve… Neve…   Augusta solidão”
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                    "So all night long the storm roared on
                    The morning broke without a sun
                    In tiny spherule traced with lines
                    Of nature's geometric signs, In starry flake and pellicle,
                    All day the hoary meteor fell
                    And when the second morning shone,
                    We looked upon a world unknown,
                    On nothing we could call our own

                    Around the glistening wonder bent
                    The blue walls of the firmament
                    No cloud above e, no earth below
                    A universe of sky and snow!

                    The old familiar sights of ours
                    Took marvelous shapes strange domes and towers
                    Rose up where sty or corn-crib stood
                    Or garden wall or belt of wood

                    A smooth white mound the brush pile showed,
                    A fenceless drift what once was road
                    The bridle post an o'd man sat
                    With loose flung cloak and high cocked hat

                    The well curb had a chinese roof
                    And even the long sweep, high aloof,
                    In its splendor, seemed to tell
                    Of Pisa's lianing miracle"

            As nevadas cobrem o trabalho executado por antigos e ignorados habitantes, que plantavam palanques e estendiam cercas, fazendo desaparecer tudo. Havia locais em que a neve se acumulava formando pequenas montanhas, as quais, para serem escaladas, exigiam coragem e intrepidez.
            De cima das travessas superiores das cercas meio submersas, a gente tentava dar saltos mortais e, freqüentemente, não os completava. Caíamos, então, de costas nos almofadões, macios como pena, da neve deslumbrante.
            Vagávamos através das pastagens e dos prados, vencendo grossas camadas de neve em vigoroso esforço físico, que nos levava a quase perder o fôlego. Sentíamos o corpo úmido do suor e os nossos rostos estuantes reluziam, corados de frio e do exercício.
            Não nos importávamos que nossas botas e mangas de casacos estivessem cheios de neve. Seria necessário sentar, sacar fora as botas dos pés inchados, batê-las e sacudi-las, para livrá-las da neve aderida, e recalçá-las, além de dar uma ou duas esfregadelas enérgicas nas orelhas. Mas se nos detivéssemos para isso, não mais alcançaríamos os companheiros líderes.
            O brilho do sol, pelos seus reflexos em miríades de cristais, ofuscava-nos a visão. De quando em quando, um esquilo ruidoso podia ser visto no alto de uma árvore, amparado pela sua capacidade hereditária de trepar correndo, como meio de conservação da espécie, congratulando-se por  haver feito a sua reserva de nozes. Aqui e acolá uma trilha de lebre, em curiosas evoluções cruzadas em todos os sentidos, não tanto porque as dificuldades do terreno o exigissem mas, sim, e muito mais, para induzir a erros de direção os cães que eventualmente a perseguissem. Mais raramente ouviam-se passarinhos a pipilar.
            Perdíamos a noção do tempo nessas correrias. Voltamos a casa para o jantar fumegante e restaurador Em seguida, às pressas voltávamos para novas aventuras.
            Aos sábados e feriados estávamos livres de pensar em escola, casa, e outras obrigações maçantes.
            De quando em quando topávamos com algum fazendeiro caprichoso, no duro trabalho de desentulhar o acesso à sua fazenda, na estrada principal. Utilizavam-se de removedores de neve toscos, tracionados por uma junta de bois ou uma parelha de cavalos.
            Tal cena ou o aparecimento da locomotiva, com o removedor de neve adaptado para liberar os trilhos, faziam-nos mudar o curso das nossas expedições.
            Essas operações eram fiscalizadas, já que exigiam fossem praticadas com perfeição. Naquele tempo ainda não existiam as grandes e eficientes removedoras de neve motorizadas. As grandes pás eram enterradas nos montes de neve e depois, levantadas. O maquinista avançava com ímpeto e recuava vagarosamente. Repetia-se o movimento até livrar os trilhos. Considerando o peso, a quantidade da neve e a precariedade dos instrumentos de então, é de admirar a rapidez com que a tarefa era executada. As equipes de removedores de neve conheciam bem o trabalho e, sob tempestade, iam construindo sólidos barrancos de neve, ao longo das estradas.
            Outra visão emocionante, era a passagem do primeiro trem depois da tempestade. Era o testemunho do domínio da natureza, pelo homem.
            Dormir? Oh! Como dormíamos, à noite, depois de uma nevada! Mas nem sempre sem os sonhos.
            Sonhávamos muitas vezes esperançados e desejosos, talvez - que chovia nas primeiras horas da noite e que ao alvorecer a chuva se transformava em neve. Assim, quando levantássemos, poderíamos sentir de novo a emoção extraordinária de brincar na neve.
            O inverno trazia-me tantos encantamentos que eu sentia satisfação e alegria só de pensar em esperar por ele. O dia de ação de graças sempre foi celebrada em nossa casa. Tias, primos e, mais tarde, pai, mãe, irmãos e irmã se reuniam, na celebração da festa do peru recheado ao molho ácido, com o saboroso acompanhamento de pastelão de galinha. Após o jantar a criançada ia ao reservatório d'água para avaliar a, espessura do congelamento e fazer planos de como e quando poderia patinar. Nós atirávamos pedras sobre a camada fina de gelo e nos divertíamos com o estalido seco, que o impacto produzia, ao quebrá-la.
                Um dia, para nossa intensa alegria descobrimos uma lagoa. Até então não a conhecíamos, embora, durante o verão, houvéssemos percorrido toda aquela região. Havia duas ilhas naquela lagoa e os passarinhos cantavam, alegres, nas árvores que nelas cresceram. Colombo, talvez, não tivesse sentido maior orgulho e satisfação, ao desembarcar na América, do que nós ao darmos com aquela lagoa. Não podíamos sequer imaginar como ninguém, até então, se dera conta da sua existência ou, pelo menos, nunca se referira a ela. Soubemos depois, que era o resultado do acúmulo das chuvas outonais e, portanto, temporária. Chamamo-la "Lagoinha". No verão, estaria seca. De qualquer forma, era curioso que aquela preciosidade hídrica fosse desconhecida pelos moradores da circunvizinhança. Com certeza os adultos nunca tiveram a curiosidade de aproximar-se daquela dobra do terreno.
            Em verdade, a "Lagoinha" quase tinha escapado aos olhos de nós, "os medonhos", pois, no verão, era apenas uma depressão do terreno, no meio do capinzal. A depressão fora produzida por antigo proprietário, para depósito de cisco orgânico que, apodrecido, serviria como fertilizante das terras pobres ao redor. Durante os anos subseqüentes à nossa descoberta, quando a "Lagoinha" começava a formar-se, no outono, nós os meninos a visitávamos com freqüência, antecipando e planejando novas reinações. As duas ilhas cobertas de arbustos, constituíam-se em excelentes esconderijos para emboscadas de índios, ladrões de estradas, bandidos, fugitivos da lei e mais quem precisasse viver escondido.
            Assumimos a propriedade da "Lagoinha" e a preferíamos a todos os lagos e lagoas adjacentes Afinal, nós a descobríramos!
            Senhoras de Wallingford, sejam cantados louvores aos seus feitos magníficos de cristianizar o "Lago da Raposa", oferecendo-lhe tantas melhorias estéticas. Mas por que não levaram avante essa abençoada iniciativa? Por que deixaram de despertar o misticismo ao "Lago das Fadas", ao "Lago das Feiticeiras" e à "Lagoinha"? Que importa, que no verão ela estaria seca? Talvez, então, ela não secasse. Talvez, as fadas estendessem o seu precioso encantamento a muitos outros meninos, distantes do reino das Fadas?
            Da minha parte, estou seguro que nem as feiticeiras, com as suas vassouras, nem as fadas com as varinhas de condão fariam vibrar as cordas da minha sensibilidade de menino com tanta intensidade, magia e encantamento, como o fez a minha primeira visão da "Lagoinha". Se as almas dos meninos mortos tivessem o poder de vagar sobre as belezas encantadas do mundo, poderiam ser vistas patinando docemente sobre a mística superfície das águas geladas da "Lagoinha", quando a lanterna melancólica da lua se erguesse por sobre o cume da Serra do Urso, para iluminar as veredas por onde passávamos nós, meninos, gritando e cantando até ficar roucos saltando, correndo e escorregando até cairmos de fadiga e, depois, famintos, corados e felizes, cruzando a cochilha do Joe Shum e a ponte dos Anderson para a luz, para o calor, para o carinho, para o aconchego do amor, no lar!
            Num Natal, encontrei, encostado no chaminé, um luzido trem com a pintura de uma rena no assento. Era um presente de meu pai que, então, estava trabalhando numa fábrica de brinquedos, em Springfield. Foi o Natal mais alegre dos muitos Natais que tive na minha infância.
            Durante o Natal, meus primos Mary, Eddie, Mattie e John Fox estavam freqüentemente conosco. De madrugada, antes de o sol surgir, todos estávamos já levantados, bem embuçados em pesados paletós de inverno, com mantas nos pescoços, regalos nos punhos e mãos enluvadas. Encaminhávamo-nos à "Lagoinha" e ao "Lago da Raposa" palcos dos nossos planos. Uma vez o "pintado" Ballow e eu patinamos quase até Rutland sobre o arroio Otter, enfrentando apenas algum obstáculo na superfície ondulada das corredeiras, onde o "João Gelado" não podia fazer uma camada sólida de gelo.
            Todos nós, rapazes e meninas, arrastando-nos com dificuldade ao longo das estradas ou nos lagos e lagoas congelados, ouvíamos, com freqüência, cachorros ganindo, em perseguição de raposas e coelhos. Como ressoavam os seus ganidos no ar fino do inverno! Eles corriam tão distantes de nós,  que não poderíamos enxergá-los a olho nu, mesmo em campo aberto, nas fraldas das montanhas, onde, no verão, o gado pastava entre pedras salientes ou espinhentas amoreiras, carregadas de frutos saborosos a espera de meninos e meninas peraltas, para colhê-las.
            Em verdade não tínhamos necessidade de ver a caça. Podíamos imaginá-la correndo assustada.
            Conhecíamos todos os cachorros do grupo. Eram os do Roz Sherman e sabíamos que Roz e seus comparsas não estavam longe, atrás deles.
            Era tempo de festas para os barulhentos latidores de orelhas longas e dotados de excelente faro. Durante todo o verão eram espantados dos arredores do hotel e da mercearia, onde procuravam, sorrateiramente, restos de alimento. Ninguém respeitava os cachorros de Roz Sherman, fato de que ele estava dolorosamente ciente. A maioria dos lamentosos ganidos, que se faziam ouvir nas ruas da cidade, era resposta de chutes de homens e pedradas de meninos nos cachorros do Roz. No entanto, desrespeitados no verão logo nas primeiras neves do inverno tornavam-se reis da criação, caçando quadrúpedes selvagens a dentes, ou a tiros de espingarda, disparados pelo seu dono.
            Se o tempo estava frio, como costumava, abaixávamos a proteção de orelhas dos nossos bonés ou chapéus e se, a despeito de todas as nossas precauções, acontecia de as orelhas de algum participante do grupo, endurecerem de frio, era aplicado um remédio muito conhecido de todos: um punhado de neve esfregado vigorosamente no pavilhão gelado, até que fosse restaurada a circulação.
            À chegada na lagoa o primeiro passo era amarrar bem os patins e partir em velocidade sobre o gelo, ajuntar galhos secos e amontoá-los para fazer fogo, diante do qual pudéssemos esquentar nossas costas, rostos e corpos, um de cada vez. Durante os frios mais rigorosos, o gelo alcançava a espessura de dezoito polegadas ou mais e, por isso mesmo, seguro para patinar, conquanto se evitassem os grandes rasgos, que os cortadores de gelo faziam
            O rumor, grave e forte que os patins produziam na superfície da lagoa, assustava quem não estivesse familiarizado. Provinham da vibração do ar preso sob o gelo. Eu nunca ouvi aqueles sons a não ser nos lagos da montanha. Nós, os rapazes, zombávamos da teoria do ar e preferíamos atribuir aquele barulho a vozes de gnomos, protestando contra o diabo que os encerrara, apertados, sob a grossa crosta de gelo.
            Ocasionalmente, cavalos a galope competiam na superfície lisa da lagoa, onde pudesse ser medida meia milha em linha reta, mas os nossos divertimentos mais gostosos vinham das competições que nós próprios imaginávamos. Faziam-se guerras de índios, matavam-se lobos terríveis e se lhes arrancava a pele, exploravam-se ricos continentes.
            À tarde voltávamos, apressados, para casa, ansiosos por acalmar a ira do deus da fome que nos consumia, a despeito do almoço de pão de trigo mourisco amanteigado, generosamente borrifado com xarope do “maple” das montanhas vizinhas. Vovô comprava xarope de “maple”, quinze galões de uma vez, e um barril de farinha de trigo preto, depois de pesquisar, cuidadosamente, preços e qualidade. Bolo de farinha de trigo preto com batata frita, em fatias fininhas que pareciam crespas, eram o menu permanente da nossa refeição matutina.
            Depois do jantar voltávamos e só dávamos a última patinada, quando começava a cair a noite. Curtos, aqueles dias de inverno!