CAPÍTULO XII

Obrigado, Patamares ( Marms )

            Quando, à noitinha, voltávamos das nossas aventuras na "Lagoinha", os primos, nossos visitantes, enfrentavam um dilema: onde jantariam? Seus tios Ed e Lib Martindale tinham as portas abertas para os sobrinhos. Não tinham filhos e meus avós tinham um, o malandro de nome Paul. Mais divertido,  fator digno de considerar-se,  seria fazê-lo na casa dos Harris. O bom senso, porém, os encaminhava ao melhor jantar, que era o de Lib. Quando chegávamos à casa, o primo Ed perguntava: "O que temos para o jantar, mãe?" Em seguida, atravessava o terreiro e fazia a mesma pergunta à tia Lib.
            Havia um prato que, quando anunciado, vencia: carne enlatada. Aquela delícia superava quaisquer outras. Sempre me pareceu que os primos venderiam a alma ao diabo por um bom prato de picadinho de carne enlatada. Se as coisas dependessem só de mim, eu encheria a nossa despensa até a altura dos joelhos com latas de "corned beef", ao primeiro sinal da visita dos primos Fog.
            Nossa despensa era bem sortida de petiscos e o depósito frio, no celeiro, permanecia, também, abastecido com os alimentos mais perecíveis. Quando o inverno se prolongava, vovô comprava meio porco ou um quarto de boi.
            Do porco era retirado o toucinho, o qual era lanhado, salgado e, depois, defumado. Do restante fazia-se presunto e lingüiça. De carne de gado, parte era transformada em charque. O aproveitamento era total. Das orelhas do porco era feito um suculento cozido; dos pés uma geléia saborosa e do rabo, um petisco de lamber os beiços. Derretia-se todo, na boca! E o torresmo, resíduo das frituras do toucinho! Que delícia, para todos! Até para nós, os pequenos! Tudo o que sobrava do porco ou da carne de gado era defumado e armazenado, para consumo durante o inverno.
            Tínhamos galinhas e ovos, além dos legumes da horta. Maçãs, peras, passas e amoras silvestres. Tudo isso, mais alguma coisa adquirida na mercearia, era suficiente para as nossas necessidades, até que o açougueiro, o peixeiro e o vendedor de milho em espiga voltassem às suas atividades. Oh! Ia-me esquecendo daqueles amarrados de charque e das pranchas de bacalhau. Ambos eram suficientemente duros para derrubar um homem, se usados como arma, mas, nas mãos das donas de casa da Nova Inglaterra, eram alimentos de deuses.
            Depois de um dia de brincadeira na neve e uma refeição revigoradora, iniciávamos nossos jogos à mesa do jantar: damas, autores, logomáquia (palavras), dominó, tria e gamão. Depois, ainda, havia nozes gostosas das nossas velhas mas generosas nogueiras e os coquinhos roubados dos esquilos, que os armazenavam nos ocas das árvores. Podiam chamar-nos ladrões? Talvez. Mas eles, também, as roubavam das árvores e "ladrão, que rouba ladrão, tem cem anos de perdão".
            Havia maçãs de diversas espécies e peras deliciosas, colhidas no pomar. Tudo isso, todavia, não saciava a nossa fome. E lá iam as pipocas, pedras de açúcar, doces de leite e outras delícias, isoladamente ou compostos em forma de pés-de-moleque e outros de sabor insuperável.
            Depois de tudo isso era natural que começássemos a bocejar e, então, vovó dizia: "Criançada, é hora de ir prá cama! Amanhã tem mais!" Dormíamos, então, profundamente. Nem sequer sonhávamos com programas para o dia seguinte.
            No rigor do inverno as diversões mudam. O final do ano anuncia o inverno total. E, então, as nevadas fortes abriam oportunidades de se pedir caronas nos trenós de fazendeiros complacentes, que regressavam de suas propriedades, nas montanhas.
            Para os cavalos não importava se estávamos embarcados ou não e, mesmo, nossos esquis de deslizadores longos aumentavam pouquíssimo a carga. Os esquis ou pranchas, como dizíamos, eram a nossa paixão, o nosso orgulho, na descida da montanha a toda a velocidade.
            Quando a neve se condensava ou se transformava em gelo a descida era como se fosse um salto de para-quedas. Às vezes chegávamos a base da montanha, no mesmo lado em que havíamos subido, outras vezes, depois de saltar sobre "thank you marm" e quebras de corpo, nas curvas, éramos jogados ao longo da estrada, motivo de gostosas e ruidosas gargalhadas.
            Para o caso de alguém que me lê não saber o que é "thank you marm" eu explico: é um obstáculo de certo porte, mais ou menos como um degrau alto numa rampa. Nenhuma trilha de montanha seria completa, prá mim, se não apresentasse alguns "thank vou marms". Quando os cavalos cansam, puxando cargas pesadas montanha acima e precisam tomar fôlego, podem fazê-lo ao atingir o patamar de um "thank vou marm", a meio do caminho na montanha, onde podem descansar e saciar-se de água fresca e transparente, num cocho adredemente ali colocado. Nos quentes dias de verão os cochos d'água e os "thank you marms" eram, para os cavalos cansados, uma dádiva dos céus.
            Quando alguém desce, deslizando o morro num esqui qualquer, ao aproximar-se de um "thank you marm" não diminui a velocidade, mas sim, com coração e corpo, atira-se para o ar, sentindo um estranho frio na barriga. A gente que foi criada em Vermont segura o chapéu na cabeça, naquele momento emocionante e grita "thank you marm". Para os estranhos isso pode parecer uma infantilidade mas para os vermontenses do meu tempo aquelas palavras antecediam a uma gargalhada, acontecesse o que pudesse acontecer.
            "Thank you marms" serviam, também, para outro propósito, cultuado pelos meninos! O esqui de carrinho. Nunca o dispensávamos no inverno. Quando a ladeira de Sabe, atalho para o morro de Sabin, estava forrada de gelo, era o melhor local para diversão, no vale. A sua encosta era longa, íngreme e com alguns "thank you marms", entre os quais um realmente glorioso. Nossos carrinhos não eram sofisticados como os usados por meninos efeminados. Eram construídos em madeira de cerne de “maple’, com os balanços amarrados e fortemente revestidos, como se fossem couraçadas. Tinham deslizadores de aço redondo, que lhe davam molejo e resistência e tinham o centro de gravidade baixo: Em nenhum ponto distavam seis polegadas do nível da neve endurecida.
            Era sensacional assistir a um ousado e hábil esquiador partir do alto da ladeira. Com uma mão agarrada a frente e a outra atrás do assento do carrinho, corre com decisão para a beira do declive, a fim de ganhar embalo, e dá o salto, elevando-se no ar. Enquanto está no ar ele encena um movimento gracioso e, quando os deslizadores assentam no gelo, o "carrinheiro" pode ser visto apoiado na coxa esquerda, o pé direito fazendo, à ré, o leme, as mãos firmes na posição inicial; os ombros inclinados prá frente e a cabeça baixa entre os deslizadores, quase raspando o gelo.
            Quem saltou? Beleza! E Bill Rutherford, no seu carrinho de fabricação própria! Vai voando para o grande "thank you marm" (esfria-saco) oposto à casa de Martin William. Ultrapassou-o, agora! Aposto que voou doze metros! Agora ultrapassa a fábrica de queijos. . . e sumiu na caminhada!
            É isso aí: os "thank you marms" são uma maravilha! Além de oferecer repouso e água aos cavalos, dão, aos meninos, oportunidade de assistir a ousados esquiadores exibirem sua coragem e habilidade.
            Se nem a patinação, nem o deslize na neve fossem praticáveis por falta das condições meteorológicas, a nossa opção ia para escalar as montanhas ou saltar, do alto dos rochedos, nos profundos bancos de neve. Sobre as montanhas descobríamos visões belíssimas do meu vale querido, todo revestido do lençol branco de neve, cercado pelas montanhas. Às vezes, atingíamos o tope de uma montanha e, de lá, descíamos para vales ainda não explorados.
            A exploração nos fornecia o fascínio de vencer, subindo ou descendo, camadas profundas de neve, o que nos excitava a fantasia de nos julgarmos descobridores de mundos maravilhosos. Tudo isso acontecia muita antes de o esqui tornar-se um esporte popular. Foi pena! Com isso, muita alegria, entusiasmo e encantamento teriam enriquecido as nossas aventuras.
            Nos dias ensolarados, milhões de faiscantes cristais de gelo cintilavam à luz do sol e nos dias nublados outras deliciosas visões se revelavam. Pouco se nos davam as condições do tempo, pois, a alegria existente nas nossas vidas despreocupadas achava, sempre, razões para manifestar-se.
            Alguns recessos da floresta nos pareciam grandes catedrais e os enormes abetos, com seus galhos curvados para a terra pelo peso da neve acumulada, eram como monges vetustos, inclinados em oração. As betuláceas brancas, que alguns poetas chamam de "anjos brancos das florestas", santificam a cena com a sua suave e casta presença.
            A quietude beatífica era, de quando em quando, quebrada pelo grasnido de um corvo voando, em círculo e preguiçosamente, contra as nuvens, ou pelo pio de perdiz, que parecia proclamar a santidade da catedral da floresta e protestar contra a invasão dos apóstatas. Quem melhor canta o infinito que eles?

            Todas as árvores - pinho, abeto e cicuta
             Revestem-se de arminho, luxo de nobres
            E do álamo os ramos mais pobres
            Se enfeitam de pérolas, em voluta

                            Every pine and fir and hemlock
                            Wore ermine too dear for an Earl
                            And the poorest twig on the elm tree
                            Was fridged inek deep with pearl

            Ocasionalmente éramos recompensados, materialmente, pelos nossos esforços para descobrir coisas raras no mato, como a pura resina de abeto vermelho, mas não nos movia qualquer interesse de recompensa material e nem tínhamos necessidade dela. Vinha de quando em quando e era bem vinda. A maior recompensa que tínhamos das nossas expedições às fraldas da montanha era o imperecível encantamento do sublime silêncio daquelas alturas, que ainda perdura em minha alma, traz paz aos meus nervos cansados e mostra um bem supremo no mistério da existência humana.
            Quando uma noite fria vinha depois de um dia quente e claro, no inverno, uma nova glória nos saudava pela manhã. A neve fortemente condensada, era bastante forte para que pudéssemos patinar e deslizar em trenós ou  improvisados tobogãs, feitos com tábuas de barris. Colinas e montes ofereciam  declives para os tobogãs. Podíamos deslizar nas encostas com eletrizante velocidade e, quando a neve era muito mais espessa e se elevava sobre as cercas e muros, também deslizávamos nas ondulações que aí se formavam. ·
            Às vezes amarrávamos com lascas de couro, as tábuas de barris nas solas dos nossos sapatos e, então, descíamos em pé ou fazíamos o que podíamos para evitar um desastre. No entretanto, as quedas eram, muito mais, a regra do que a exceção e os últimos metros do percurso eram cobertos numa involuntária posição... A vítima era, geralmente, saudada com estrondosas gargalhadas dos presentes mas tudo era encarado com espírito esportivo.
            Se o tempo frio se prolongasse e o sol continuasse encoberto, a camada de gelo permanecia, às vezes, por dias, mas qualquer que fosse a variação metereológica nós estávamos sempre preparados para praticar traquinadas.
            Nunca me esquecerei de uma vez em que eu e um companheiro escalávamos uma montanha, cavando buracos no gelo para apoio dos pés. Ele ia à frente e estava acima de mim. De repente, o degrau, em que se apoiava, rompeu-se e ele despencou no espaço e, sujeito apenas à lei da gravidade, passou por mim como um bólido e se foi para o fundo do precipício. Apavorado, desci certo de encontra-lo morto. Imaginem a minha alegria, quando ele apareceu ileso! Deus proteja as crianças! Ao invés de cair sobre as pedras, fê-lo sobre um abençoado colchão de neve macia, que se acumulara numa cavidade do terreno.
            Era necessário que eu usasse todos os meus recursos de persuasão para convencer vovó a permitir-me sair à noite. Para ela, todos os pecados do mundo eram praticados sob o manto da escuridão. Meus pedidos eram geralmente avalizados por alguém mais velho que eu e digno da sua confiança. As correrias ao luar eram deliciosas e era só quando a velha lua brilhava que vovó nos permitia sair. Naturalmente as meninas estavam incluídas nessas brincadeiras. Nelas experimentei, pela primeira vez, uma emoção intensa, que me aqueceu, profundamente, a alma.
            Muito embora eu não mencionasse, estava visível que o que eu sentia era muito mais profundo do que mera e casual admiração por uma menina redondinha, de  cabelos lindos e olhos escuros, que conheci, sentada perto de nós, quando deixávamos o alto de uma colina. Alimentei sonhadas esperanças de que meus sentimentos fossem correspondidos mas não tive meios de o saber, pois, se ela gostou de alguém, fez como eu: jamais confessou.
            A paixão tomou conta de mim e, secretamente, eu me felicitei por ter uma namorada. Sua residência, no vale, era recente. De onde viera, com que família de Wallingford ela tinha ligações, eu jamais soube, mas foi o nome doce de Josie Lilly o primeiro que me fez o coração palpitar. Josie estava entre os habitantes temporários do vale. A maioria, entre estes, vinha sem ser chamada e ia sem ser lastimada, depois de haver produzido alguma alteração na vida quotidiana do vale.
            Às vezes subíamos na montanha para ver os fazendeiros franco-canadenses derrubar árvores, para lenha. Era um espetáculo ver a árvore cair com estrondo, às machadadas. O machadeiro derrubava as árvores para o lado que queria. A habilidade com que desgalhava as árvores, e depois, reduzia os troncos a toras de medidas certas e os rachava, convertendo em lenha, que era empilhada ao longo das trilhas para facilitar o carregamento em trenós baixos puxados por bois.
            Descer a montanha deslizando em trenós de madeira, era um esporte perigoso mas excitante. Os trenós se esfacelavam nas pedras e tocos mas, às vezes, chegavam ao vale, sem novidades. O que quer que se diga dos nossos imigrantes franco-canadenses, ninguém nega que eram os mais animados. As pilhérias e comentários sobre eles eram só conjeturas. A pomposa gabolice e as estórias impossíveis, que contavam, eram características deles. William Dremond, um escocês, imortalizou os franco-canadenses no seu livro de versos "The Habitant". Nós, os jovens, tínhamos certeza de, ao menos, dar boas risadas quando íamos vê-los fazer lenha no mato.