CAPÍTULO XVI
Colhendo Amora e Pescando Truta
No começo do verão havia amoras silvestres a colher. Framboesas,
amoras pretas e brancas e, também, ararás. Colher essas frutas
nas montanhas era trabalho e não era fácil achar meninos
que se submetessem a fazê-lo. Só os meninos das famílias
pobres, que necessitavam dinheiro, o faziam e depois vendiam as frutinhas
de porta em porta. Alguns deles eram ótimos companheiros e, estimulados
por suas mães, estavam disponíveis desde cedo para que a
gente pudesse ter tempo de colheita diária abundante. Até
nos longos dias de verão eles me chamavam, antes de romper a madrugada,
e já estaríamos bem no alto da montanha, quando o trem da
manhã, que vinha de Rutland, começasse a margear o arroio
Otter, lá em baixo, no vale. Era, sempre, para nós, prazer
calcular o quanto demorava, para chegar aos nossos ouvidos, o som do apito
depois que víamos os tufos de vapor que o produziam.
Geralmente havia neblina ao longo do leito do riacho. Enquanto estávamos
dentro dela não o percebíamos mas lá de cima do morro
era perfeitamente visível.
As manhãs são a fase mais arrebatadora dos dias. Plenas de
expectativa e de esperança. Se alguém quiser sentir a maravilhosa
beleza do céu e das nuvens, vá às montanhas ao dealbar
do dia e aspire aquele ar fino e puro, ouvindo a sinfonia orquestral dos
pássaros, despertando e inebriando-se na fragrância das flores
silvestres.
Cada colhedor de amora leva um balde e um cestinho. Este vai suspenso a
tiracolo. Quando a quantidade colhida justifica a descarga, o balde é
colocado numa sombra densa, forrado de folhas e as amoras são passadas
para dentro dele.
As morangueiras crescem em maior abundância na parte baixa das elevações
do terreno, onde a terra é levemente arenosa. Os moranguinhos são
menores que os produzidos no pomar mas são muito mais doces. É
necessário perseverança para uma, colheita razoável
dessa frutinha silvestre, muito apreciada pelo sabor e pela raridade.
As framboesas e as amoras pretas seguem os moranguinhos, à proporção
que a estação avança e, em seguida, as amoras azuis:
das abundantes na Green Hill, onde o solo pedregoso e ácido produz
outras coisas muito escassamente. No entretanto, as raízes da amoreira
azulada, do gualtério e da samambaia vicejam no solo pobre de Green
Hill. Outra vegetação se rejeita a ocupar a mesma terra.
Em compensação a essa privatividade de solo, Green Hill produz
amoras escuras azuladas saborosíssimas. A amora azulada vai sendo
domesticada mas, ao que me consta, não com o mesmo sucesso dos moranguinbos
e das framboesas. As tentativas de dar-lhe maior volume refletem em prejuízo
do sabor.
Os araçás silvestres são os últimos na marcha
da estação. São maiores e mais avermelhadas do que
a amora azul e menos saborosos mas mais abundantes. Os arbustos, mais altos,
favorecem a colheita. .Pode-se debulhar um arbusto de araçás
diretamente no balde de um trabalhador hábil que pode colher grande
quantidade num só dia. O fruto varia de sabor conforme a qualidade
do solo e é menos apreciado que as amoras azuis. Abunda na base
dos grandes penhascos da Pedra Branca. Como, de resto, em todas as montanhas
de Vermont.
Vovó sorria docemente quando eu trazia o produto da minha colheita
mas, a bem da verdade, confesso que eu não o fazia muito desinteressadamente.
Eu pensava nas deliciosas tortas que ela fazia com as frutinhas. Embora
meus avós jamais me pedissem, nem mesmo sugerissem, que eu fosse
colher as frutinhas silvestres, minha avó sempre ficava alegre quando
eu aparecia, cansado, queimado do sol e descalço, com um balde cheio
delas, bonitas e frescas.
Quando eu era ainda criança, papai, cansado das minhas amolações,
levou-me um dia a pescar trutas. Fui inoculado pelo vírus do gosto
de pescar! Desde então qualquer convite para a beira d'água
me fascinava. Qualquer pocinho sob uma pedra, buraco ou barranco tem sido,
para mim, como uma tentação. Ainda estou prá sentir
ato mais emocionante do que fisgar uma truta lá no fundo, quando
ela deixa o seu esconderijo gelado e escuro, e tirá-la fora d'água
contorcendo-se, resplandecente à luz do sol; e fazê-la cair,
cativa, sobre a margem. Ainda não vi nenhuma criatura mais linda
do que uma truta. Tem simetria perfeita de forma e uma maravilhosa coloração
variegada. Seu dorso sarapintado varia com a cor do fundo da corrente e
da água do seu habitat; quanto mais escuro o seu ambiente mais escura
ela é, por isso menos visível, por seus inimigos. Os pescadores
de trutas admiram a pureza do vermelho das suas barbatanas abdominais.
Mas inexcedível em beleza é a delicada coloração
dos flancos do peixe, com suas pintas carmesins rodeadas de um anel índigo-azulado.
Nenhum pintor mesmo na porcelana, poderá reproduzir a multiplicidade
e a harmonia das cores dos flancos dessa criatura que vive nas sonoras
correntes d'água das montanhas da Nova Inglaterra.
Por que podem os homens e os meninos sentir alegria na, captura e morte
de tão linda criatura!? Nosso instinto congênito, eu acho.
Alguma coisa que façamos para nos sentir realizados como vencedores.
Há pouco tempo, ainda, lindos pássaros eram mortos pela beleza
das suas penas ou pela maciez de sua carne. Nós sobrevivemos
a tais selvagerias e agora recordo aquelas criaturinhas como os nossos
mais ternos amigos, melodiosos por suas vozes, e lindos pelo brilho das
suas cores. Talvez nossos belos amigos dos riachos das montanhas possam,
algum dia, viver em paz. Já há sinais disso. Já não
ouvimos, com muita freqüência, homens contando quantas trutas
pescaram num só dia. Os pescadores de hoje já não
matam pelo prazer de matar. Não é de boa ética, entre
os esportistas, tirar das águas mais peixe do que os que lhes bastem.
Certo dia, numa biblioteca pública, pedi alguns livros sobre pescaria.
O bibliotecário, para minha surpresa, interpelou-me: "Livros
de fundo filosófico ou prático?" Ri, a princípio,
mas pensando melhor, respondi: "Parece-me que pode ser catalogado
entre os que você chama de ‘fundo filosófico’, o livro que
estou procurando".
Eu estava certo. O pescador prático é o que quer matar tantos
peixes quantos puder. Para o filosófico, o apanhar o peixe é
só uma parte da história e, talvez, a menor parte. Ele está
interessado, de fato, na natureza. Em primeiro plano está a oportunidade
que goza de comungar com a natureza e participar das grandes leis que regem
a criação. Ele pode seguir um curso d'água, ou permanecer
sentado, solitário, num barco, sem o menor senso de solidão.
É o pescador filosófico. Isac Walton era um deles. Pregava
a religião da vida, ao ar livre e fez mais do que qualquer outra
pessoa, do meu conhecimento, para popularizar a pescaria. Que deliciosos
pensamentos ele legou para deleite dos aficionados da sua geração
e das vindouras. O professor Henry Drummond foi um pescador filósofo.
E, modéstia à parte, também eu o fui.
A truta não é só a mais linda das criaturas. É
o mais tímido e inteligente de todos os peixes. Os homens adoram
medir esperteza com ela e uma truta experiente sai, quase sempre, vencedora.
Só os muito experimentados a vencem.
Nessa habilidade de sobrepujar a truta o barbudo Ed Sabia e o latoeiro,
o perna de pau Pratt, fabricante de esquifes, não tinham competidores.
Eram individualistas puros e simples. A técnica deles variava muito
e os resultados eram os mesmos: eles pegavam a truta. Ed colocava as que
pescava num samburá enquanto que o Perna-de-pau cortava uma varinha
com nódulo ou forquilha numa das extremidades e alinhava nela, enfiados
pela guelra, as suas. O Perna-de-pau era lento nos seus movimentes mas
voltava sempre triunfante, de cabeça alevantada e a perna de pau
batendo um “stacatto” forte e regular nos passeios calçados da aldeia.
Como rejuvenescedor, a pesca da truta é método dos mais conceituados.
Como nas colheitas de amora, minhas excursões piscatórias
começavam antes de o dia surgir. Quanto misticismo naquelas madrugadas
silentes! Eu tinha a impressão que o mundo todo era meu! Mesmo vovô,
madrugador impenitente, nem sequer se espreguiçara quando eu saia,
silenciosamente, pela escada-caracol da
adega, onde costumava achar pratos com trutas, resultado da pescaria
anterior. Eram pedaços impregnados de fubá e frios em manteiga
que, embora frios, constituíam excelente desjejum. Eu cortava um
naco de carne seca, que sempre havia pendurada na entrada da adega. O meu
almoço seria fatias desse naco. Eu tinha horror aos atrapalhos que
me fizessem perder tempo e cedo descobri que carne seca, amolecida na água
do riacho, era suficiente mente nutritiva.
"Sou um córrego na serra
Vindo da entranha da terra
Corro ligeiro e volteando.
Serra abaixo, vou cantando
Sou tão livre como o vento
Corro depressa ou bem lento.
Parado é que jamais fico...
Corro, murmuro, saltito.
Se me fecham o caminho
Eu me ínflo e, encarninho,
Salto, passando por cima,
Faço-me em véu de obra prima"
(Birney C. Bakcheller)
I'm a merry mountain brook
Hiding in some shady nook
Babbling, laughing a1l day long
Running, dancing with a song
I'm as free as winds that blow
Little care I'where I go
Only let me have a run
Splashing, tumbling all in fun
An obstruction in my path simply
Makes me swir! and laugh
Nothing stops me as I flow
Over rocks to pools below
O arroio das crianças era o meu preferido. Sua nascente era um olho
d'água no alto da colina, num contraforte do pico da Pedra Branca.
A água junto à nascente, protegida do sol de verão
por formidáveis penhascos e pelas árvores, permanecia gelada
o ano todo e o lugar era conhecido como "Ice bed" (cama de gelo). A uma
milha da "cama de gelo" eu podia começar a pescar nas águas
frias do arroio das Crianças. Rastejando através da larga
faixa de vegetação baixa e dos capinzais, ao longo do leito
do arroio, eu podia lançar meu anzol iscado em poços muito
promissores. Às vezes o resultado decepcionava, pois, a despeito
dos meus esforços, eu não conseguia passar despercebido pela
truta. O brilho de uma fita luminosa no leito do arroio, acima ou abaixo
do lugar em que eu estava e um pequeno deslocamento de terra no fundo,
onde o peixe esfregava a barriga, indicavam que eu fora percebido.
Eu persistia e as trutas famintas, uma após outra vinham morder
a minha isca, às vezes, até, no mesmo poço. Ainda
posso sentir a emoção que antecede o momento certo da fisgada,
a desesperada resistência do peixe e, afinal a alegria de tirá-lo
d'água, espadanando o ar.
Eu costumava encher os grandes bolsos do paletó com folhas de fetos
e tracoás apanhadas ao longo do riacho. Cada truta, apanhada era
envolvida nelas e aí permanecia até que eu chegasse em casa.
Esvaziava então, os bolsos numa gamela com água bem limpa,
separava os peixes dos seus envoltórios, regozijando-me com cada
presa e recordando as fases, o lugar, as peculiaridades e o prazer que
sentia ao tirá-la d'água, pelo pecado de morder a isca.
Quando o sol atingia o seu zênite eu devia descansar e, à
sombra de uma árvore amiga, eu comia o meu farnel gozando a vista
luxuriante do vale, deliciando-me ao rumoroso murmúrio das águas
do riacho, ao perfume selvagem da hortelã e à frescura e
pureza da brisa suave. De quando em quando, uma borboleta colorida e indecisa
cruzava o ar e as abelhas laboriosas procuravam o néctar das flores,
enquanto, sopradas pela brisa, as hastes altas do capim curvavam-se graciosamente.
Não há música mais suave e mais acariciante que o
murmúrio das águas do riacho. Um amigo meu, cujas fotos publicadas
na revista "National Geografic" encontraram milhões de apreciadores
em todo mundo, disse-me que, enquanto percorria as montanhas com os dois
grandes naturalistas, Jorn Burroughs e John Muir, certa vez, ele viu Burroughs
deitado sobre o assoalho de um velho pontilhão. Deitou-se ao lado
dele e perguntou o que fazia. O naturalista respondeu:
"Estou gozando a música do riacho".
Muitos são surdos aos sons que outros ouvem encantados. Poucos,
em verdade, gozam plenamente as doações maravilhosas dos
sentidos da vista, da audição, do sabor, do cheiro e da vibração
espiritual. Que magnífico o privilégio da convivência
com os dois "Joões", o dos passarinhos e o das montanhas!
Depois de almoçar o farnel, eu me debruçava, de joelhos
e mãos apoiadas nas pedras, e bebia, deliciado, a água fresca
e pura do riacho.
O riacho aumentava em largura e quantidade d'água, a medida, que
descia na encosta da montanha, com destino ao arroio Otter. As trutas,
também, aumentavam de tamanho e de capacidade de defender-se quando
alcançavam águas mais fundas. Nem o riacho nem o arroio eram
conhecidos como morada de grandes trutas. Mesmo as de meia libra (226,79
g) eram raras. As duas maiores, que me lembro haverem sido apanhadas nas
águas nossas vizinhas, eram de duas libras (907,18 g). Vi uma delas
e senti uma inveja imensa de quem a pescou.
Com o tempo tornei-me um pescador de trutas bastante proficiente mas nunca
pude nivelar-me com o Sr. Ed Sabin ou com o Sr. “Perna-de-pau” Pratt. Eles,
praticamente, apanhavam trutas até nos rios onde elas não
existiam! E sempre pescavam sozinhos!
À tarde eu encerrava meus dias de pescaria e voltava cansado mas
feliz. Se havia gente doente na aldeia o meu pescado era dividido com ela.
Vovó preparava as trutas bem torradinhas, enrolava-as num guardanapo
imaculado e eu nunca estava tão cansado que não pudesse ir
entregá-las. Vovó tinha aquele jeito caridoso e eu era, voluntariamente,
o seu mensageiro.
Muitas cestas e muitas comidinhas, carinhosamente embaladas, enviadas por
ela eu as fui levar a doentes e necessitados. Duas velhas irmãs,
uma delas completamente cega, solidárias no sofrimento, eram receptadoras
da bondade de vovó, indefectivelmente me recebiam sorridentes e
me pediam levasse as suas mensagens de gratidão e reconhecimento
de volta.