CAPÍTULO XX

Uma Família Unida

             Os hábitos de vida na família de meu pai costumavam estar, sempre, em franca ebulição. Parecia venturoso quando vovô comprou-lhe outra "drug-store". Era na cidade de Fair Haven (Céu Alegre), a cerca de 40 quilômetros de Wallingford. A família se reuniu novamente numa boa casa que vovô comprou. Tudo parecia bem. O entusiasmo e o otimismo de papai eram sem limites. Fomos recebidos entre os líderes da cidade e nós, crianças, passamos a freqüentar a escola dominical, na igreja, e fomos matriculados na escola.
            Papai trabalhava bastante e, durante os seus lazeres, permanecia com a família. Nas tardes de domingo ele nos reunia ao redor do piano que vovô dera a minha mãe. Papai dirigia o canto, embora ele não conhecesse nada de música. Sua voz de baixo não entoava, nem modulava. Mais parecia com o ruído de uma caixa surda. No entanto, ele não se dava por achado e, de temperamento exuberante como era, regia como se soubesse fazê-lo. Quando não sabia a letra do hino, costumava improvisar. Quando começava um hino, ninguém sabia quando terminaria, pois ele adorava causar efeito sobre mamãe. Por exemplo, ele cantaria:

                        As frustrações da minha vida foram muitas
                        Os meus pecados o foram mais
                        Mas, graças a Deus, eu não sou santo .

            Sendo, a última linha, seu improviso, ele a cantava com redobrado entusiasmo.
            É exato, papai. Você nunca foi santo. Sua relação de amigos continha criaturas das mais diversas condições e você foi sempre tão livre de preconceitos religiosos e políticos como, eu jamais conheci outro exceto, talvez o seu pai, meu avó, de quem você e eu herdamos  tolerância. Outra coisa sobre você, meu querido pai, que ocorreu muito: depois de eu haver deixado Vermont; ainda guardo carinhosamente, na memória. Refiro-me ao período final da sua vida, em Denver. Mamãe estava aniquilada. Cega e paralítica, ocorreu, então, a grande mudança da sua vida: você a assistiu com a maior ternura, durante os seus últimos anos de vida, carregando-a nos braços para a cama e para a cadeira de rodas; alimentando-a pacientemente, às colheradas; murmurando-lhe palavras carinhosas e de consolo! Como foi grande o seu desespero quando ela morreu! Como você encarou com bravura a sua solidão, naqueles últimos anos em que a ela sobreviveu!
            Papai tentou ser parcimonioso, quando retomou a vida em Fair Haven. Ele imaginou um sistema de trocas. Trocava charutos por fígado, língua e bucho, que considerava petiscos. O Sr. Powel, fumante inveterado, aceitava a barganha, já que, como açougueiro que era, quase não tinha outros fregueses para tais vísceras. Papai procurou estender o sistema. Tomava em aluguel cavalos e carruagens do Sr. Hyde, dono do estábulo, mediante dez por cento do pagamento em charutos. Fizemos muitos lindos passeios de carro, aos domingos, nesse sistema de barganha. Ele oferecia trocar charutos por qualquer outra mercadoria, mesmo que dela não se servisse prá nada. Parece que não se dava conta de que os charutos também lhe custavam dinheiro.
            Com o correr do tempo a família aumentou. Vieram outros filhos, Guy, Claude e Reginald. Tia Sue, que veio morar conosco, preocupada com o aumento dos filhos de mamãe. Guy morreu muito criança. Claude morreu a serviço da sua pátria, nas Filipinas, no final do século. Reginald sobreviveu. Tornou-se membro da Universidade de Wyoming, serviu no exército durante a primeira grande guerra, e agora, mora na Califórnia.
            Papai cultivava o quintal, durante a estação quente e colhia bom suprimento de batatas, uvas, morangos, trocando idéias, de quando em quando, com o padre católico que morava ao lado.
            O produto do quintal barateava bastante a despesa da casa.
            Enquanto papai cuidou da "drugstore" e mamãe atendeu a casa as coisas correram a contento. Mas papai cedeu às suas fraquezas , de querer tornar-se inventor e mamãe passou a tomar empregadas domésticas e dar lições de piano, dirigir o coral da Igreja. Então, tudo veio abaixo. Chegamos ao extremo de não termos o que comer!
            Meu avô previu o desastre e chamou a atenção de papai. Este sorriu indulgentemente, certo de que o velho já estava caduco. Inventou um veneno contra o besouro da batata para substituir o verde-paris. Batizou-o de "púrpura londres" mas o verde-paris continuou sendo o preferido. Inventou, também, um preparado a que deu o nome de flor de agosto e, como não dispunha de cobaias para experimentá-lo, passou a experimentá-lo em nós, as crianças.
            As suas experiências com produtos químicos resultaram em muitas explosões, suficientes para abrir buracos em suas roupas ou manchá-las, tornando-as irrecuperáveis. Repetiu-se a tragédia de Racine. Foi como se meus pais não houvessem aprendido nada com o passado sofrimento.
            Nós três, os filhos mais velhos, estávamos freqüentando a escola. O diretor era um sujeito alto, seco, anguloso de olhar malvado. Chamava-se Ichabod Spencer. Nunca assumia a postura ereta. Tinha o andar mole e bambo, que dava impressão de estar se preparando para saltar sobre alguém, inocente ou culpado. Sua atitude inspirava terror à criançada. Era um detetive nato e ansiava, sempre, farejando pela sala. Usava um paletó preto e calças com joelheiras salientes, ensacadas. Não me lembro de haver visto vestígio de sorriso em sua face. O castigo corporal era permitido, naquele tempo, nas escolas públicas e Ichabod Spencer demonstrava ter prazer de aplicá-lo. Havia muitos cômodos no prédio, ao lado da sala de aula, onde ele poderia saciar a sua malvadez fora das vistas e ouvidos das crianças mas ele gostava, mesmo, era de praticá-la brutalmente, assustando as crianças inocentes e tímidas. Certa vez um dos alunos assustou-se a ponto de desmaiar. D'outra feita, um menino se impressionou tão profundamente que, durante uma semana, não pôde suportar alimentos no estômago.
            Para as faltas mais graves era costume encaminhar o aluno para o professor Spencer, que aparecia, sempre, com alacridade, portando o seu costumeiro chicote de couro cru. Havia um menino gaulês, no nosso departamento, que se chamava Harry Parry. Era incorrigível. Para ele o professor Spencer não gastava muita fala. Apenas duas frases: "Harry Parry, venha cá na frente" e “tire o paletó". Então, em meio aos gritos do rapaz, o professor Spencer saraivava chicotadas sobre ele, enquanto a.gurizada, pálida, tremia nas suas carteiras.
            Se Charles Dickens, antes de escrever o seu "Nicholas Nickelby", tivesse conhecido o professor Spencer, este teria sido retratado como personagem Wackford Sqeers. O professor Spencer era a encarnação do imortal diretor da Dotheboys School e Harry Parry seria o equivalente ao pobre Smike.
            Desgraçadamente a Nova Inglaterra não teve um Charles Dickens profligando o abuso de autoridade nas escolas, para que os métodos educacionais tivessem sofrido grandes mudanças  em ambos os lados do Atlântico.
Minha experiência na escola dirigida pelo professor Ichabod Spencer foi para mim, a "gota d'água". Eu fora capaz de suportar a falta de direção e a má conduta dos costumes na casa de meus pais. Mas a permanência na escola do professor Spencer não foi possível! Estava além da minha capacidade.
            A nossa casa em Fair Haven não subsistiu. Papai e mamãe mudaram-se para o Colorado, onde permaneceram até a morte. Mamãe em 1920 e papai em 1926.
            Meu lar em Wallingford ainda estava aberto pra mim e pela terceira vez eu me refugiei lá, na sua calmaria. Minha experiência em Fair Haven aumentou, de muito, a minha solidariedade a vovô, na tristeza que o envolveu nos seus últimos tempos de vida.
            Eu percebia, preocupado, as dolorosas impressões que as cartas de meu pai produziam em vovô. Ao lê-ias, ele abandonava-se, sentado na sua cadeira de braços, por horas, suspirando tristemente.
            O amargor da sua postura doía fundo em minha alma, embora eu fosse um guri irrequieto e traquinas.
            De quando em quando vovô e eu trocávamos confidências. Eu era, sempre, quem as provocava. Embora ele jamais me dissesse o que; sentia, eu notava-lhe o olhar impregnado de ternura.
            À medida que ele envelhecia, aumentavam as dificuldades de certos autocuidados. Pedia-me, às vezes, que lhe barbeasse e eu o fazia o melhor que podia. Outras vezes, pedia-me que lhe ajustasse as calças. Não me lembro que ele me houvesse pedido para executar qualquer tarefa doméstica mas, certa vez, o vi entrando em casa, sem acabar a remoção da grande camada de neve que se acumulara no caminho. Esgueirei-me, então, por trás da porta, apanhei a pá onde ele a deixara e removi o monte de neve que restara e fui, para disfarçar, correndo ao correio.
            Um dia, como eu estivesse sentado ao seu lado, ele me disse que não poderia esperar permanecer conosco por muito tempo. Perguntei-lhe "até quando?" Respondeu-me: "No máximo, dez anos": Fiz-lhe, então, a pergunta:
            Você gostaria de viver mais, vovô?
            Oh! sim. E muito! Respondeu-me, em tom de resignação.
            Assim é com os homens e com todas as criaturas, desde o menorzinho dos insetos até o maior gigante dos mares. Todos agarram-se à vida. A providência fez indesejável o abandono deste mundo!
            Eu imagino, sempre, como o moribundo encara a morte. Será que ele a vê tão terrível e indesejável como eu a vejo? Vovô nada teria dito se eu não o tivesse levado a tanto. Se eu não fosse de natureza tão impulsiva, e tão curioso, teria percebido que não contribuira em nada para abrandar as tristezas de vovô. Mas eu era apenas um menino de boa índole, inclinado a brincadeiras, traquinadas  e outras  infantilidades.
            A despeito dos meus estouvamentos e freqüentes traquinadas,  vovô demonstrava terna afeição para comigo. Um dia, quando Mary Foley estava na cozinha bom suas louças e panelas, vovô comentou:  "Esse menino marcará sua existência".
            Muitos anos depois da morte  de vovô, chegou a mim um pequeno e bem conservado caderno que continha resumos da situação financeira dele a cada 1º de  janeiro, de 1826 até 1888, ano em  que faleceu. Sem data, numa das páginas, estava escrito "para mamãe"  e "Paulo". Era, um testemunho eloqüente da sua determinação e auto sacrifício em favor dos seus entes queridos.
            Vovô era homem calado. Pensava mais do que  falava. Muita gente que conheci falava muito sem pensar. Com vovô isso não acontecia. Demorava até para responder "sim" ou "não" e, antes de pronunciar essas palavras havia alguns pigarros e murmúrios e, emitidas, vinham amparadas em "talvezes" e "pode-seres" que soariam mal vindos de outra pessoa. Percebi, muito cedo, que usava essas palavras e gestos para prevenir aborrecimentos, se as suas afirmativas ou negativas estivessem erradas. Era como se estivesse experimentando os freios, antes de se lançar num declive.
            Quando alguém passava a conhecer bem vovô, tomava os seus "sim", ou "não" como definitivos, não importando o número  de "pode ser", "talvez", "possivelmente" acompanhantes.
            Apesar de não serem cuidadosos no falar, como vovô, os vermontenses eram mais ou menos calados. Não podemos esquecer o clássico episódio entre Silas e Obadiah! Silas estava experimentando seu novo automóvel e, por má sorte, atropelou Obadiah. Consternado, parou e perguntou: "Eu te machuquei, Obe?" Este, limpando o pó da cabaça. e dos braços, respondeu:  "Eu poderia responder que você me acariciou, Si?"
            A maioria das crianças têm oportunidade de aprender com os ensinamentos e exemplos dos pais. Poucas têm dos avós. A maneira de pensar dos pais passa aos filhos. Eu me considero afortunado por ter tido o privilégio de escolher entre os métodos ordenados e prudentes dos meus avós e os desordenados e imprudentes dos meus pais. Eu jamais teria apreciado tanto a casa dos meus avós, se não tivesse vivido, também, na casa dos meus pais.
Um meu amigo dileto costumava dizer que todo o lar bem equilibrado deveria ter uma refeição diária em que os membros da família pudessem discutir os planos de futuro e os eventos presentes. Ele afirmava que as refeições, com esse rito, são extraordinariamente edificantes...
            O nosso jantar era a refeição ritual, se se pode chamar refeição um simples repasto. Era durante o jantar que os assuntos de família eram resolvidos.Vovô, sentado na sua cadeira de braços, cortando transparentes fatias de queijo duro ou quebrando uma rosquinha. Era quando emitia os seus mais eloqüentes epigramas.
            Já mencionei, antes, o desusado tamanho dos seus polegares. As más línguas caçoavam que ele usava os polegares para quebrar barriquinha de melaço. Era tudo calúnia! Aqueles grandes polegares eram voltados só para o bem e os seus movimentos infundiam eloqüência e liderança.