CAPÍTULO XXI

Uma Briga sem Palavras

                Vovô, pelo seu notório senso de tolerância e temperamento de não falar mal de ninguém e de nada, deveria estar resguardado de malquerenças de quaisquer dos seus vizinhos, e, de modo geral, o estava. A mais grave queixa, que se poderia ter de vovô, era a sua pouca participação nos acontecimentos da comunidade. Sua incapacidade de expressão, mesmo para emitir as suas mais arraigadas convicções, era a razão pela qual ele transferia aquela função aos que gostavam de falar. Como, por exemplo, o Sr. Joel Ainsworth, que estava sempre pronto a emitir suas opiniões sobre quaisquer assuntos públicos, quer amadurecidas, quer improvisadas.
            Vovô cumpria com todas as exigências legais, desde que não precisasse falar. Ao primeiro sinal de debate, se afastava em silêncio. Em outras palavras, ele tinha horror a controvérsias de qualquer espécie.
            Com tal mentalidade, parecia ser a última criatura do mundo a tomar parte numa inimizade. No entretanto, ele teve uma inimizade iniciada antes da minha chegada à sua casa e jamais terminada. O seu oponente? A pessoa com quem mais ele deveria viver em paz: o seu vizinho de porta, a quem chamávamos tio Ed, marido de tia Lib.
            Desafortunadamente, tio Ed era, também, um sujeito calado, avesso a controvérsias. Se essas duas valorosas figuras fossem capazes de discutir ou de agir, a briga teria acabado em morte mas isso jamais aconteceria. O fogo esteve aceso por mais de meio século mas nunca queimou ninguém.
            Vovô encontrava-se com tio Ed quase diariamente na rua mas passavam como se não se conhecessem. Vovó e tia Lib, em constantes relações, especulavam, às vezes, as causas da inimizade mas nunca chegaram a elas. Certa vez tia Lib falou: "Como é que isto pode acontecer!? Edwin deve tudo o que tem ao Sr. Harris". Mas mesmo vovó e tia Lib nada puderam conseguir em favor da conciliação. Nem vovô nem tio Ed pronunciavam, um, o nome do outro. Tio Ed, às vezes, aventava seus problemas para papai ou para mim mas nunca se referiu a vovô.
            Ambas as famílias se supriam de água na mesma nascente e o mesmo cano servia as caixas das duas casas. Às vezes o conduto furava e faltava água e tanto tio Ed como vovô se apressavam a localizar a falha. Nessas ocasiões eles eram forçados a trabalhar juntos e era admirável como se entendiam, sem trocar uma palavra. Terminada a operação cada qual reunia a respectiva ferramenta e se recolhia em silêncio. Tio Ed, às vezes, cuspia como se estivesse sentindo um gosto mau na boca. Eu até achava que tio Ed teria prazer de dar umas pancadinhas com o pé de cabra ou com o olho do machado na cabeça de vovô. Mas isso seria contra alei e os vermontenses são respeitadores irreprocháveis da lei.
            Embora vovô fosse amigo de não falar, às vezes ele se permitia quebrar o próprio silêncio.
Durante uma das nossas conversas ao jantar, vovó perguntou se ele havia lido um certo artigo sobre "O tipo de vida americano" no "Springfield Republican". Ele respondeu:  "Sim, já li inteirinho, palavra por palavra, e quero que Paul o leia".
            Calou-se aí mas por certo teria continuado, se vovó não interferisse:
             "Estou vendo que você gostou, pelo jeito que falou.
            Vovô respondeu pensativamente:
             "Sim. Gostei e não creio que haja um americano que não goste. Acredito que todos apreciamos os nossos privilégios mas não sabemos bem porque os apreciamos. O "Republicano" nô-lo explica. É felicidade a vida num país que admite a igualdade de oportunidades para todos. O "Republicano" nos conta que há países que só admitem o contrário disso, cultuado a injustiça dos privilégios de classes. Em tais países alguns podem educar-se e outros não e, naturalmente ,uns poucos constituem a classe dirigente. Na América eu acredito que as benesses da educação são estendidas a todos os que as querem, proporcionando oportunidade de todos participarem dos assuntos governamentais e, assim, não se criará uma classe dirigente".
Em seguida, voltou-se para mim olhando-me inquisitivamente e falou:
            "É por isso Paul, que eu quero que você tenha uma boa educação. E para isso eu posso ajudá-lo e o farei com tudo que  me for possível".
            Quando vovô acabou de falar eu compreendi que a minha sorte fora lançada: eu teria que ir para o colégio e estudar. Não havia "talvez", "quem sabe", ou equivalentes.
            Diz-se que o discurso de Lincoln, em Gettysburg, fora considerado um fracasso pela maioria dos jornais da época e, também, pelo próprio Lincoln. Passaram-se anos para que  ele fosse considerado e reconhecido como o mais importante discurso pronunciado em língua inglesa.
O discurso de vovô, para mim, foi como de Gettysburg. Vovô, sem dúvida, o considerou um fracasso mas, passados os anos, começou a frutificar.
            Noutra ocasião, mais tarde, vovô votou a discursar durante o jantar e, com a sua fala, influenciou profundamente o meu futuro. Novamente, então, foi vovó quem o provocou:
             "Pai, tia Lib me contou que se fala muito, na eleição de Lawyer Lawrence para juiz, de Rutland. Eu sei o que você pensa de Lawyer Lawrence mas o que você não sabe sobre advogados daria para fazer um livro. Você jamais ocupou serviço de advogadas para atingir alguém ou defender-se".
             "Não. Eu jamais ocupei advogado e nem penso em ocupar mas já li bastante o que o Ruthand Herald diz sobre Lawyex Lawrence e acho que  é digno de qualquer honraria que lhe atribuam".
             "O que você leu, é o bastante para você confiarem Lawyer Lawrence?"
             "O bastante para me fazer crer que ele é diferente de outros muitos advogados. Ele parece estar sempre interessado na justiça. Não usa de argumentos bombásticos a fim de obter a benevolência do público. Fala pouco mas cada palavra que , pronuncia merece o respeito do outro advogado, do júri e do juiz".
            Não foi um discurso muito longo comparado a outros a que assisti. Mas foi muito convincente para o jovem, sentado à mesa e profundamente interessado na conversa.
            Durante o ano de 1896 fiz a prática de advocacia em Chicago e tentei sempre ser um profissional com as qualidades do juiz Lawrence e vovô teria me aprovado. Como presidente da Comissão de Ética Profissional da Associação de Advogados de Chicago, instaurei alguns casos de infração do código de ética.
            Mas para o menino de Wallingford havia profissões com maiores atrativos do que o estudo da lei. Ser um maquinista de locomotiva oferecia a glória de estar-se sentado num trono e batendo um sino. De outro lado, para o trabalho de falar, havia a profissão de leiloeiro!
            Os fazendeiros de Vermont eram conservadores. Quando conseguiam obter qualquer coisa, só grandes forças invencíveis os faziam abrir mão.
            No nosso vale, como em qualquer parte, havia, de vez em quando, leilões pelos quais a gurizada se interessava muito. O lado fascinante deles era o jargão do leiloeiro. Às vezes eles os criavam de improviso mas, na sua generalidade a característica interessante residia na sua habitualidade. Os espirituosos eram, para os jovens, os que mais os divertiam. Era delicioso aquele modo de falar sem dizer nada nas suas modulações estranhas de ritmo, assovias, chios, gorjeios, tartamudêios e o estropiamento de palavras. Eu compreendia que aqueles artifícios se destinavam a provocar riso das fazendeiros e distrair-lhes a atenção da dor de lhes estarem arrancando as economias tão ciumentamente guardadas. De qualquer forma, a algarávia nos agradava e todos nós tentávamos imitá-la, procurando dar-lhe a maior semelhança possível com o original. Divertíamo-nos enormemente, com isso. Na verdade, eu pensava em ser um leiloeiro, caso vovô pusesse objeção a que eu me "formasse" maquinista de estrada de ferro, guarda-freios, condutor, soldado, marinheiro ou, possivelmente, espião.
            O leiloeiro ornava os seus negócios com humorismo e insistia até que o último objeto do arremate mudasse de dono. Ao dono da mercadoria, no entanto, sem se levar em conta o resultado da venda, restava a gozação feita pelos gracejos do leiloeiro e repetidas por quantos as haviam assimilado.
            Todas os artigos, inobstante o seu estado de conservação, desde o berço das crianças ao relógio de parede da família, tinham sua história sustentada na devoção e no sacrifício - que iam até à frugalidade - do casal de quem provinham. Havia algo de cruel naquela distribuição de destinos dos animais domésticos e objetos - livros, cadeiras, mesas, máquinas de costura e utensílios - que sucediam ao incidente triste da dissolução de um lar, onde houve antes, sentimento e amor.