CAPÍTULO XXII

A Estação de Estrada de Ferro

            Wallingford tinha apenas umas poucas ruas: a "Main Street" (hoje denominada Ethan Alen Highway), a River Street, a School Street, a Depot Street, a Sabes Hill, a Mill Lane (travessa) e mais uma meia dúzia de travessas menos importantes, abertas sem planejamento prévio, que davam acesso a lugares onde as pessoas escolhiam cara morar ou para recreação. A casa de vovô era na Main Street.
            O lugar mais convidativo, para a garotada, era a estação ferroviária que chamávamos, simplesmente, estação. O interesse ia ao ápice duas vezes por dia. Uma às 11,15 da manhã e a outra às 4,30 da tarde, quando chegava o trem do norte. No trem da manhã embarcava, sempre, um bom número de passageiros de Wallingford para Rutland. "Subir a Rutland" era a expressão usual, embora, o rio Otter continuasse, obstinadamente, a correr de Wallingford a Rutland, portanto, descendo...
            As mercearias da comunidade eram de boa aparência mas as lojas de tecidos, calçados e confecções de Rutland eram o que havia de melhor. Vendas por correio eram desconhecidas. Os passageiros das 11,15 podiam voltar no misto das três horas ou teriam de esperar "o noturno das dez e meia", o que era considerado uma imprudência.
            O trem do norte, à tarde, era conhecido como o trem da mala do correio e nele viajavam poucos aldeões. Se alguma coisa extraordinária não acontecesse não havia justificativa para ir-se a Rutland à tarde. Quem ia a Rutland no trem das 11,15 estava cedo na estação para não perder o trem. Quando eram muitos, enquanto esperavam trocavam comentários sobre compras e circulavam as fofocas correntes em Wallingford.
            Havia um banco longo que tomava toda a parede sul da sala de espera, a qual, no inverno, era aquecida por um fogão a carvão. Meu Deus! Como aquele fogão esquentava!
            Harlie Morgan era o agente da estação. Morava, com a esposa em confortáveis cômodos, entre a sala de espera e o armazém de cargas, sob um só telhado.
            Além da residência gratuita, Harlie recebia o salário de 600 dólares por ano. Podia, assim, comerciar carvão com o povo de Wallingford. Deveria estar em serviço permanentemente, isto é, de dia e de noite: no telégrafo, para as mensagens do povo, e no controle de trens.
            A estrada de ferro só tinha uma linha e a vida dos passageiros dependia de uma criteriosa administração e controle dos comunicados dos agentes de estação. Harlie tinha, costumeiramente, um auxiliar que trabalhava, sem outra retribuição além da aprendizagem do serviço ferroviário, inclusive do telégrafo. Sobre o auxiliar recaia a responsabilidade de conservar a estação aquecida e em ordem, despachar as mensagens telegráficas, e as malas do correio, assistir os ferroviários na carga e descarga das mercadorias despachadas, preencher as guias de transporte e fazer-se útil de todas as maneiras. Depois de provada suficiência, ele poderia receber e transmitir mensagens.
            Havia sempre um ambiente de expectativa na estação, mormente à chegada dos trens de passageiros que se transformava em excitação quando a locomotiva contornava a curva e aparecia. Nós sabíamos os nomes de todas as locomotivas: "O Menino Verde da Montanha". "A Menina Verde da Montanha”, etc. etc. e era constante a discussão sobre qual delas era a mais veloz. No entanto, todas eram admiradas quando contornavam a curva gingando e se lançavam, através da ponte sobre o Arroio Roaring. O maquinista garboso, sentado ao lado da janela da cabine, parecia sentir-se orgulhoso do espetáculo que oferecia. De qualquer forma, tangendo o sino e apitando o 11,15 e o quinze pras quatro passavam, após parar por momentos para carga e descarga, deixando o pessoal de Wallingford com seus próprios planos para matar o tempo.
            Dos dois trens mencionados, o das quatro e meia era o mais interessante por conduzir três personalidades que nos encantavam. Uma era o maquinista. Outra o resplendente John J. Parich, chefe do trem que, no seu imaculado uniforme bordado a ouro de lapelas brancas, ostentava-se com destaque indiscutível.     Numa pesquisa de popularidade, ao longo da linha, entre as moças casadoiras, John J. venceria, tranqüilo, quem quer que se lhe opusesse.
            Prá nós, rapazes, no entanto, a mais notável era a figura delgada e jovem do guarda-freios Thompson, que nos dava arrepios diários de emoção, ao exibir-se, com agilidade e graça, saltando, às vezes, com uma lanterna na mão, do último vagão do trem em movimento, quando deixava a estação. Porque Thompson esperava que o trem se pusesse em movimento para abandoná-lo? Claro! Ele deveria haver embarcado noutro vagão antes que o trem se pusesse em movimento! Mas onde estava a glória do seu ato? Mesmo o volumoso John J. poderia fazer o mesmo mas não, o fazia. Ele, provavelmente, visava reter a admiração dos rapazes da comunidade, onde tinha mais prestígio do que o Presidente da República.
            Esquecia-me de relatar que o trem das quatro e meia tinha, entre os seus vagões, um "carro pullman" e nós estudávamos, com muito interesse, as criaturas estranhas que viajavam nele. Milionários, quem sabe?! Mais tarde eu soube que um estudante do colégio de Middlebury havia viajado no carro pullman. Quando ele chegou se vangloriando: "Eh! Meus chapas, eu viajei no pullman!" Recebeu, e jamais perdeu o apelido de "Dick, o do carro pullman". Certa vez, surgiu por lá um homem de aparência estranha e nós ficamos curiosos por saber quem era. George Sabin afirmava que era um democrata. De nossa parte ficamos intrigados com as características que um democrata pudesse ter, pois, afora Dangosth Hullet, único democrata na comunidade, George jamais havia conhecido outro. No entanto, ele era um leitor assíduo da Mecânica Popular e nós não ousávamos duvidar dos seus comentários.
            Após o correr da cortina das atividades a estação de Wallingford voltava ao silêncio reverente da sua ala juvenil. Quebrá-lo seria uma profanação. Vagarosa e silenciosamente voltávamos as nossas atenções para o lado leste. Restava apenas o privilégio de conduzir as malas ao correio e esperar a respectiva distribuição. Anti-clímax? Sim. Alguém, de algum lugar, poderia ter escrito ou seria possível que algum coração bem formado houvesse respondido à freqüente, e muito parecida publicidade dos cartões postais. Possível seria a chegada do "Youths Companion" com a continuação do seriado "Indian Pete". Falhas essas aspirações sobrava-nos a esperança de que, no dia seguinte, o trem das 4,30 voltasse e poderia trazer o "filme" diário, para estimular a capacidade criativa da gurizada.
            As lojas de Wallingford eram lugares convidativos para revista dos "medonhos", quando não tinham nada que fazer. Alguma coisa estaria se passando na loja de Danforth Hulett. Era o empório da comunidade. Ali, sempre, a gente encontrava um pouco de tudo. Sobretudos e paletós para fazendeiros, implementos agrícolas, calçados em couro e borracha, galochas, guarda chuvas, utensílios domésticos, louça e uma linha limitada de provisões secas, além de alguns armarinhos e variedades. Um enorme fogão a carvão, rodeado por escarradeiras é cadeiras, aquecia todo o pavimento.
            A parte dos fundos do 1º andar era ocupado por comestíveis e artigos de mercearia. O depósito continha tonéis, sacos e caixas e mercadorias por atacado, que supriam a loja. Pilhas de bacalhau, exageradamente salgado, enchiam a parte de trás da loja.
            Ao longo do depósito ficavam as balanças, nas quais os carros. carregados ou vazios podiam ser pesados e, nos últimos anos, havia sido, aberto um açougue no sub-solo. A Hullet's era, na verdade, a única loja indispensável da comunidade. Não, porém, pela virtude pessoal do seu dono. Danforth era um homem silencioso e esquisito. Grande, saudável de aspecto, movediço e polido. Fred Stafford dirigia o negócio, o que não o absorvia a ponto de impedir-lhe o tratar da clientela com cortesia e graça. Era um estabelecimento muito movimentado. Dele se desenvolveu outra grande organização em Rutland, em que Fred Stafford era sócio.
            Uma das mais memoráveis características da Hulett's era a variedade de odores que emitia. Pode-se imaginá-lo pela variedade de artigos que possuía, como ficou dito acima.
            Nós, os "medonhos" afinados com os padrões de Hulett's, conseguíamos, de quando em quando, biscoitos com fatias de queijo e ameixas secas, etc., etc., nas ocasiões propícias. Não me lembro de nenhuma vez termos sido corridos das latas de ameixas ou das barricas de biscoitos e de outras mercadorias que a nossa gulodice patrocinava. Parece, até, que era política da Hulett's considerar a gurizada um mal necessário.
            Havia hábeis cuspidores de fumo mascado que freqüentavam algumas lojas. Naturalmente a grande maioria dos homens em lazer não experimentava as delícias que o mascar fumo encerra.
            Eles consumiam fumo de outra maneira. Os que alimentavam o sujo hábito de mascá-lo, exerciam um estranho poder de atração para a garotada. O tiro ao alvo de cuspo à distância, praticado por eles, com as "mascas" de fumo, era espetáculo para a garotada. Eu conheci alguns ilustres exemplares de exímios cuspidores!
            O chamado fumo indiano crescia abundante nos campos de pasto e nós costumávamos usá-lo, para praticar o tiro ao alvo, até que pudéssemos usar o artigo genuíno. Jamais, porém, o conseguimos e, até hoje, eu não tive conhecimento de um perito-cuspidor, formado com o fumo indiano. Apenas um dentre nós podia cuspir a uma certa distância, mas por entre os dentes. Lamentavelmente, ele provinha de família não muito acatada e nós não demos destaque à sua habilidade.
            Wallingford tinha sua quota de homens que ganhavam a vida fora das fábricas, das lojas, dos escritórios. Por outras palavras: tínhamos quem vivesse de expedientes criados por iniciativa própria.
            Quem costumava transitar pela estrada marginal do ribeiro que descia de Rutland, conhecia Galuska Haversham com suas fofas costeletas. Tinha um narigão de impor respeito e usava um pregador de diamantes, em cruz, faiscando na gravata de seda preta. Não. Galuska não era milionário como alguém pode supor. Ele, às vezes, vendia pianos. Mas, pelo que se via costumeiramente, tinha uma habilidade respeitável de engambelar o próximo em negócios. Nunca se deixou enganar. O apelido de trapaceiro ele o recebia com orgulho. Se o chamassem hipócrita, já seria outra coisa. Tais características combinavam com o seu orgulho profissional.
Galuska tinha um talento especial para negócios com cavalos. Não importa que defeitos latentes ornassem o animal. Quando tratava de negócios envolvendo cavalos, não respeitava limites de dedicação. Punha um sorriso, profundamente convincente, irresistível para qualquer cliente, e honrava a linhagem dos animais com virtudes inauditas. O rocim mais ordinário se transmudava, em suas mãos, no mais nobre representante eqüino sobre a face da terra. E . . . mentia com um displante inacreditável.
            Galuska conhecia todos os negociantes de cavalos acima e abaixo de nosso vale. Lograva todos. Possuía e criava argumentos imbatíveis e quando o punham num aperto, achava os mais incríveis recursos para sair-se deles.
            Quando acontecia de ele achar o preço pedido por um animal muito alto e não o conseguia baixar, propunha pagar a prazo, por promissórias. Certa vez, quando o freguês examinou a promissória, para saber da possibilidade de desconto em banco, verificou que o vencimento era "à conveniência do devedor"! . . . Assim, se lhe conviesse, nunca pagar! . . . Usava ainda dopar cavalos velhos e lerdos para fazê-los parecer "fogosos corcéis". A única restrição era com negócios aos domingos. Dizia-se crente fervoroso e desejoso de observar os dias de oração... a menos que a transação lhe oferecesse vantagens extras! . . .
            A sua ação em negócios era impiedosa. Adotava, como conduta, o paralelo entre negócios e a luta de boxe. Se um boxeador pode nocautear o outro numa abertura de guarda, porque ele não poderia derrubar o seu parceiro em negócios numa bobeada deste?