CAPÍTULO XXIII

Nosso Pórtico Frontal

            A vida de vovô careceu da inspiração da amizade e isso foi, para ele, uma grande perda. As amizades teriam enriquecido e iluminado a sua vida. No entanto, ele devia possuir uma especial fortaleza íntima, pois nunca se queixou de solidão. Durante o verão ele consumia seus momentos de folga ao lado da porta da frente, onde pudesse sentir-se mais confortável: sentado no assoalho do alpendre com as costas apoiadas na parede da casa. Não sei porque não punha ali uma cadeira. Provavelmente achava isso um comodismo excessivo. O seu lugar preferido era do lado sul do alpendre. Por vezes seu pé esquerdo se apoiava no chão mas o comum era manter ambas as pernas esticadas. Isso quanto a postura, porque o lugar onde sentava era sempre o mesmo. Jamais mudou.
            Por seu lado, vovó estava sempre tão atarefada com a casa que quase não lhe sobravam momentos para descansar. Prova-o o fato de haver vivido 80 anos em Wallingford e não haver conhecido a cascata, um dos mais belos lugares da região, a três quilômetros de nossa casa.
Cerzir meias, remendar roupas e adaptá-las a proteger o neto contra os rigores do inverno, consumiam as horas de folga de vovó. Embora fosse muito mais comunicativa do que vovô, não se pode dizer que fosse palradeira.
Quase nunca se referia aos seus antepassados mas lembro-me de que mencionava um tal tio Bucklin que, como José do Egito, durante o período de fome partilhou o milho que possuía com a família e com aqueles que não o tinham. Argumentava que vivendo em comunidade, ele aceitava que, acabado o milho, passasse as mesmas necessidades dos seus concidadãos.
            Enquanto eu era, ainda, muito criança, um meio irmão de vovó voltou do oeste em estado lastimável de magreza e, como o médico lhe proibia de fumar, ele foi à loja de Webster onde se reuniam os desocupados, à noite, e acendiam seus cachimbos até que o ar ficasse totalmente empestado. Voltou satisfeito por haver enganado o médico. Mas sua alegria durou pouco: caiu de cama e vovó se pôs a cuidar dele. Algumas manhãs depois ela, aflita, chamou o Sr. Harwey Congdon que, após examinar rapidamente o tio Bill, virou-se para vovó e disse:  "morreu!"
            O pórtico frontal da casa era pouco usado por nós, embora em ocasiões especiais, à  tardinha, vovó trouxesse para ali uma cadeira e ficasse tricotando e apreciando o movimento da rua. Gente passeando e, também, vacas passavam conduzidas pelas crianças dos nossos vizinhos.
            Eu me sentava junto dela, no degrau de mármore do vestíbulo, porque sabia que era por um período curto de descanso. Significava que os deveres da casa estavam, todos, executados. Uma tarde em frente do alpendre era, para vovó, como uma viagem à Europa para qualquer outra pessoa. Com o chale de crochê sobre os ombros, protegendo o corpo frágil do ar frio da boca da noite, ela se balançava suavemente na cadeira de embalo, de vime, olhando as flores do jardim, que plantara, e relembrando tempos passados.
            De quando em quando, algum vizinho, que a via ali, vinha quebrar suas recordações com um bate-papo. Muito mais raramente os vizinhos viriam com prévio aviso.
            Mas havia alguns vizinhos que eram convidados. Eram os beija-flores. Vovó havia lançado um convite extenso e permanente, usando a linguagem que os beija-flores podem entender: o plantio de flores de pétalas longas. Ela, há anos, plantara uma latada de madressilvas que revestiam, de lado a lado o pórtico e os beija-flores a tomaram como de sua propriedade exclusiva. Na verdade o era, pois nenhum outro passarinho e nem as abelhas poderiam alcançar o fundo das pequeninas campânulas florais para extrair a sua seiva doce, como o faziam os graciosos colibris de longos e delgados bicos.
            Vovó e eu nos deliciávamos às tardinhas, assistindo as idas e vindas dos cuitelos, o frenético vibrar das suas asinhas verde-douradas, que lhes proporcionava a habilidade peculiar de voar à ré e para os lados e a sua graciosa gulodice no sugar o açúcar das pequenas corolas.
            O colibri que aspira
            Como jóia valiosa,
            Da madressilva, o mel,
            Na corola olorosa
                        (James Whitcomb Riley)
                                    The hummingbird that hung
                                    Like a jewel up among
                                    The tilted honeysuckle horns
            Numa noite o Sr. Joel Ainsworth nos visitou e vovó fez-me trazer-lhe uma cadeira confortável, da sala. O Sr. Joel era um parente distante, por afinidade, e um dos nossos mais respeitados cidadãos. Além de outras atividades que exercia, tinha uma fazenda pequena ao lado da rodovia. Produzia ali, legumes suficientes para sua família, ovos e leite para seu uso e para venda aos vizinhos. Fôramos, tempos atrás, seus fregueses. Supervisor do município e agente de seguros era, em verdade, um homem muito versátil.
            Logo que o Sr. Ainsworth sentou, vovó falou:  "Que prazer é receber a sua visita Joel e, ainda mais, agora. Eu soube que você está apoiando a candidatura de James A. Garfield para a presidência da República e gostaria de ouvir, de você, pessoalmente, o que pensa dele".
             "Bem, Pâmela, nada me alegraria mais do que informá-la das razões que me levam a apoiá-lo. Julgo-o um segundo Abraham Lincoln ou quase. Igual a Lincoln nunca houve e não haverá outro. Acredito, Pâmela, que o mais sábio construtor de caracteres é a adversidade. Esta tem sido a professora dos mais destacados homens da nossa nação. Um homem capaz de elevar-se pelo seu próprio valor, do nada à mais alta dignidade, merece e tem o meu inteiro respeito. James A. Garfield, como Lincoln, nasceu numa cabana e se fez por si. A mãe, mulher de caráter excepcional, foi quem o inspirou. O resto ele o fez".
            Depois de uma pausa, continuou:  "Não Pâmela! Não quero dizer que um homem nascido em berço de ouro não possa merecer a distinção de ser Presidente. Mas aquele que atingiu a condição por seu próprio esforço tem mais méritos".
            Nesta altura, o Sr. Ainsworth bateu com a bengala no assoalho, num gesto de absoluta convicção.
            "Concordo, Joel, com tudo o que você acaba de dizer", respondeu vovó. "James Garfield vem trabalhando duro na fazenda de seu pai. Só tinha mãos fortes ,animoso espírito, boa educação e inspiração a estimulá-lo. Há, ainda, mais. Ele tem aspirações. Não as tivesse não teria saído do seu lugar para lutar pelo melhor por eles todos. Admiro a sua trajetória. Procurou o seu caminho, ensinando e aprendendo, ilustrando-se em leis, adentrando os domínios da política. A gente sente que ele está determinado a ser Presidente e o será, se Deus quiser. Ele é, tipicamente, um americano".
            Apertaram-se as mãos com firmeza, ao despedirem-se e eu fiquei achando que a visita poderia prolongar-se por mais tempo.
            A partir, de então, passei a torcer por James A. Garfield. Como coisas estranhas acontecem, comecei a pensar em tornar-me Presidente dos Estados Ungidos em lugar de maquinista da estrada de ferro, como antes sonhara.
            As presenças de vovó, no alpendre, eram grandes acontecimentos e tão agradáveis que eu desejava se estendessem indefinidamente. Mas ela tinha seus deveres na casa e um sem número de obrigações e, assim, pouquíssimas vezes íamos para a frente da casa. Em outras palavras, permanecíamos dentro de casa, mormente no inverno quando a neve tolhia os movimentos de toda gente, menos dos meninos.
            Os transeuntes eram poucos e nos dias de tempestade de neve eles diminuíam quase a zero. Parecia que teríamos acrescentado algum novo fator ao nosso conceito de conforto se, pelo menos, pudéssemos esquecer o calor bom da nossa sala do lado sul e pensar nos nossos vizinhos que, a despeito do rigor do vento e da violência da nevada, saiam para o correio ou para a venda.
            No entanto, havia alguém, entre nós, que ainda se queixava de isolamento e solidão. Era o mais assistido de todos. Chamava-se Paul Harris!
            A residência e loja do Sr. Asa Webster ficavam exatamente à frente da nossa casa. A loja tinha um cômodo para reunião de algumas pessoas da vizinhança e era freqüente que três octogenários, o Sr. Webster, o juiz Button e vovô lá estivessem, comentando os acontecimentos da comunidade e queixando-se das suas enfermidades. O Sr. Webster, extrapolava-se. Relatava as suas passadas façanhas, como esportista de corrida e salto. Atribuía-as suas marcas extraordinárias nesses esportes ao rigor do regime físico, a que teve a energia de submeter-se. Costumava, diariamente, correr uma milha (1609 m) e cortar um metro cúbico de lenha pela manhã, para, abrir o apetite, ao desjejum. Quando era moço e vigoroso ele podia saltar a uma altura tal, que lhe permitia bater os calcanhares três vezes no ar.
            Quando era visível que o Sr. Webster ia partir para narrações, das suas proezas, vovô costumava inclinar o encosto alto da sua cadeira contra a parede da loja, enroscar os saltos dos sapatos na travessa inferior da cadeira e segurar-se firmemente na forte bengala que usava, como a preparar-se para qualquer emergência.
            O juiz Button, acostumado a tantas histórias, apenas punha a mão em concha nas orelhas e se inclinava para o Sr. Webster; aparentando não querer perder nenhuma minúcia da proeza relatada.
            Nem vovô, nem o juiz interrompiam os relatos do Sr. Webster. Boas risadas e observações de incredulidade ocorriam na sua ausência. Ambos, quando ouvintes, assumiam postura de profunda solenidade.     Até pareciam meio lúgubres, às vezes. Que se saiba, esse comportamento a dois era espontâneo, nunca combinado. Cada qual compreendia a situação e agia por conta própria. Fundamentalmente, ambos sabiam que o Sr. Webster não só era um mentiroso impenitente, como tinha, até, orgulho de sê-lo.
            Lembro-me de uma vez que, o Sr. Webster, depois de haver contado uma proeza de corrida, quase inacreditável, desafiou vovô para uma "corrida" de ida è volta a Clarendon, cinco
quilômetros distante. Vovô aceitou o desafio.
            Vovô não falou a ninguém da aposta. Nem vovó soube. Tudo continuou como sempre. Apenas vovô começou a andar muito mais longe nos seus vagares. Vovó, mais tarde, confessou que
notara a mudança nos hábitos do marido: ao invés das suas sestas da tarde, no alpendre, ele saia a andar. Ele saia sempre com a bengala. Era mais uma vara comprida demais para ser bengala mas que cumpria a mesma função, companhia. Durante os dias, que, precederam a competição, vovô passeou por muitas milhas com a bengala.
            Era de estranhar mudanças de hábitos em vovô e vovó não atinava com a razão delas. Apenas esperava, pois sabia que ele as explicaria, quando oportuno.
            Tudo o que ouvimos a respeito da competição veio-nos pelo pouco que fluía do Sr. Button e de sua filha Ellen. Por eles, soubemos que se realizara.
            Os dois octogenários partiram, com destino a contornar a igreja de Clarendon. O juiz sentou no alpendre do Sr. Webster, ponto da partida, como o julgador. Os competidores, perdendo ou ganhando, estavam obrigados a cumprir o percurso.
            Soubemos, também, que vovô partiu sem pressa, andando metodicamente. O Sr. Webster tirou distância, andando muito mais rápido e mais animado. Dentro de algum tempo, começou a sentir aproximação de vovô, vindo a passos regulares, de trás. Segundo nos foi relatado, vovô contornou a igreja à frente do opositor e, já de volta a Wallingford, encontrou-o ainda no percurso de ida. Cruzou com ele calado mas o Sr. Webster não se agüentou e falou: "Harris, parece que você não se importa muito com os seus bons companheiros!”...
            Quando o Sr. Webster chegou, vovô estava, com o juiz, sentado no alpendre. O juiz olhou o relógio mas nada disse. Ele e vovô receberam o vencido apenas com um respeitoso e solene olhar. Em absoluto silêncio.
Depois, se desculpando, vovô falou:
             "Desculpe se o induzi a cansar-se, Webster. Eu devia ter parado para acompanhá-lo mas ocorreu-me que minhas galinhas podiam ter escapado do terreiro e estar ciscando no jardim do Juiz".
            Acabaram-se as histórias dos brilhos de atletismo do Sr. Webster. Mas ressurgiram outras, dando conhecimentos de aventuras com feras perigosas. O juiz e vovô chegaram à triste conclusão de que haviam matado a galinha de ovos de ouro: o Sr. Webster jamais voltou a ser o que fora.
            Passado algum tempo, o Sr. Justin Batcheller, um dos sócios da Batcheller Fork Company, desejando construir sua casa e temendo que o preço pudesse crescer se ele pessoalmente propusesse a compra do terreno do Sr. Webster, pediu a vovô que fizesse o negócio, realizado por 3.000 dólares. O Sr. Webster mudou-se e, em frente à nossa, o Sr. Justin fez construir uma linda residência Quando vovó soube do negócio ralhou com vovô: "Olhe o que você fez! Acabou com o único local de vadiagem que teve na vida!"
            De fato: ele jamais teve outro.