CAPÍTULO XXIV
A Sociedade Secreta
No que toca à escola, a minha volta a Wallingford foi oportuna.
Estava pra iniciar-se, ali, o Professor Shaw. Não me lembro de ter
ouvido chamarem-no por outro nome, nem de alguém que fosse seu amigo
íntimo. Conhecíamos o seu prenome. Era Will. Fora trabalhador
braçal numa das cidades do sul e graduara-se no Middlebury College,
como o melhor da turma.
Quando assumiu a escola de Wallingford tinha 26 anos. Seu salário:
600 dólares por ano. Era homem reto, vigoroso, saudável,
cuidadoso no vestir: um símbolo de juventude sadia e responsável.
Seu percurso, como o estilo de andar, de casa à escola, era exatamente
o mesmo, ano após ano. Posso ainda vê-lo passar pela nossa
casa com seu manual de latim, peito saliente, cabeça reta e olhar
firme para a frente. Era o oposto ao Professor Ichabod Spencer, de andar
vacilante, sobrancelhas hirsutas e olhar malévolo. O Professor Schaw
gostava dos alunos e raramente os castigava.
A Campanha de instalação de uma sociedade de debates na escola
secundária de Wallingford foi de iniciativa de Henry Lincoln (Inky)
Ballou, primeiro e único presidente da comissão organizadora
para tal. Havia tudo para crer que essa comissão fosse permanente.
Mas aconteceu o desastre. Na sua primeira assembléia, um dos membros
apresentou a sugestão de que as deliberações deveriam
ser tomadas por votação secreta, a fim de que os seus membros
pudessem opinar sem temor ou interesse dos reflexos políticos que
pudessem ocorrer. Outro membro lembrou que, para isso, seria necessário
que todos prestassem juramento de fidelidade ao regime secreto, tanto os
membros natos como os que passassem a integrar o "Inky's". Foi, pois, fixado
data para iniciação no "rito sagrado". Durante a semana intercorrente
os participantes passaram a imaginar como cada um deveria comportar-se
com relação aos demais.
Por vontade de todos, a sociedade em formação já se
extinguira. Nada dela restava, além da disposição
coletiva de uma exibição aparentemente digna, na noite da
cerimônia da iniciação.
Quando, afinal, a oportunidade chegou, os membros estavam divididos em
duas alas: os que pretendiam ser apenas membros e os que queriam ser dirigentes.
Alguns pretendiam ser candidatos, baseados em que seria melhor ocupar os
postos de direção logo de início a fim de traçar
rumos e indicar processos.
Escolhidos os candidatos, o conselho de estratégia convocou uma
assembléia para decidir sobre os processos que os selecionariam.
As luzes da escola seriam apagadas e os candidatos seriam admitidos um
a um às provas de capacidade. Antes, porém, teriam seus olhos
vendados, seriam prevenidos de quão solene seria o compromisso,
e que as provas seriam severas. Albert Mandigo foi o 1º a submeter-se.
Um dos nossos mais distintos cidadãos foi nomeado capelão
e outro o superintendente e, tão logo os olhos de Albert foram vendados,
o capelão iniciou o ritual que terminava com uma pretensa linda
prédica. Não me lembro do texto completo mas sei que terminava
com esta imprecação: "Deus que se apiede da tua alma". Então
Albert foi informado que todas as providências haviam sido tomadas
para quaisquer acontecimentos e, mesmo que ele fosse despedaçado
nalguma fase da prova, seus destroços seriam reunidos e ordenados
à medida do possível.
Nesse ponto Albert lembrou-se que prometera chegar mais cedo em
casa e que já estava atrasado: era melhor deixar a prova para outra
oportunidade.
A estes argumentos, "Inky" Ballou, o superintendente, replicou um estrondoso
"não"! Que não haveria nenhuma suspensão da prova
a não ser por ordem do Rei que, infelizmente, morrera quinta-feira
da semana passada.
Sem outro qualquer argumento, Albert foi agarrado pelo fundilho das calças
e pelo congote por duas mãos do poderoso Senhor Executor e posto
a correr ao redor do compartimento escuro, com velocidade muito maior do
que jamais experimentara, tropeçando em obstáculos atravessados
no caminho, tais como atiçadores de estufa, bastões de basebol
e sob troadas, gritos, maldições e imprecações,
às quais o candidato juntou as suas sem nenhuma cerimônia.
Foi ele o único candidato a ser posto em prova na sociedade secreta
de Wallingford. Quando o Superintendente voltou à ante-sala, a procura
do outro candidato, achou apenas as cadeiras. A prova de Albert havia sido
ouvida! . . .
Quando isso veio a público, Albert rompeu a queixar-se amargamente.
Durante o sofrimento que passara ele se apoiava na esperança de
que outros, como ele, se submetessem à prova. Sentia-se agora manipulado
pelos demais e abandonado pelos seus companheiros candidatos. Já
não havia razão para viver! Muitos
o consolavam e muitas caçoavam dele mas ninguém mais pensaria
em submeter-se à prova se a tal sociedade vingasse.
Por proposta do presidente "Inky" o projeto foi adiado "sine die". Significava,
até nunca, pois pela continuação da sociedade só
Albert é que votaria.
Ortografia soletrada era matéria que a escoa de Vermont levava,
com muito rigor. Alguns alunos eram muito bons nela e outros muito ruins.
Entre os bons, estava George Hit e entre os maus, estava "Inky" Ballou,
excelente em tudo o mais.
Para suprir essa deficiência, Inky resolveu sentar-se próximo
a George na aula de ortografia. George tornou-se a muleta de Inky e evitou-lhe
muita queda. Como não se dedicasse, passou a ser totalmente dependente
de George. Passado algum tempo George resolveu testar se poderia levar
Inky a um fracasso. O Professor Shaw pronunciou Mississipi
para Inky soletrar. Tínhamos o hábito de soletrar cantando.
George então cantou: M, duplo s, i, duplo, s, i, duplo p,
i. Inky repetia tudo religiosamente, mas George continuou levando-o a repetições
sem fim. Ninguém sabe até quando ele tencionava repetir mas
Inky, dentro de pouco, sentou-se, cansado, na carteira.
Inky era leal a seus amigos e isso era evidente quando alguém lhe
falava de Mississipi: como não se apercebera da brincadeira de George,
ele, com um remoto agradecimento dizia: "Por Júpiter!" É
uma palavra difícil de soletrar! Se não fosse George eu teria
"cristalizado", quando o Professor Shaw pediu-me para soletrá-la!
"
Anos mais tarde, Inky se tornou o inquebrantável extrema direita
do Amherst, time de futebol. E muito mais tarde tornou-se pastor congregassional,
profissão em que se salientou, mas duvido que soubesse soletrar
Mississipi.
Durante o outono declarou-se a febre política e, nos anos de eleição
para presidente ela atinge os mais estranhos paroxismos. Em Walingford
não havia razão para o povo excitar-se,
politicamente, pois Danforth Hulett, filho de Effraim, era o único
democrata ali residente. Danforth era um dos mais destacados comerciantes
da nossa vila e, mais tarde. o foi dos de Rutland.
Tudo o que sei dele é que seu pai sempre se referia a "o meu menino
Danforth", que usava cana em lugar de paletó, palitava os dentes
com um palito de marfim encastoado em ouro, só falava de negócios
e votava sempre com os democratas. Era um sujeito equilibrado, exceto.
em política. A tal respeito era fanático. Não havia
esperanças de fazê-lo mudar.
Sua excelência, o governador Redfield Proctor, fez um discurso político
em Wallingford durante a campanha presidencial e toda a comunidade, exceto
Danforth, foi à estação recebê-lo. Os homens
acenavam com os chapéus e davam vivas, quando o Governador desembarcou.
Alto, alinhado, com a barba tratada, chapéu alto de seda e fraque.
A banda de Wallingford aumentada com oito figurantes executou o "See the
Conquering Here Comes".
O governador Proctor tinha muito o que dizer sobre a proteção
da indústria caseira, particularmente sobre o aumento de produção
e da tecelagem de lã. Disse que as colinas e serras de Vermont eram
próprias para criar ovelhas. Que os fazendeiros de Vermont, no passado,
haviam incrementado a criação de ovelhas mas recuaram em
virtude da importação de lã barata da Austrália.
Apontou as correntes d'água como fonte barata de energia para movimentar
quantas fábricas se instalassem, de fiação e manufatura
de roupas de lã, mas que esse estímulo também tinha
sido morto. Restavam apenas pequenos artesanatos de roupa de lã
importada.
O entusiasmo que a fala do governador Proctor despertou foi surpreendente.
Espalhou-se por toda a região, como se fora um incêndio em
madeira seca, inflamando os sentimentos republicanos e envolvendo até
a infância.
Num movimento popular o desfile terminava com um menino carregando um carneiro,
que resistia ao movimento. Por certo, o carneiro era democrata! . . . De
qualquer forma levava uma faixa com esta inscrição: "Sou
um animal abandonado, esquecido e quase extinto, conhecido por carneiro
de Vermont. Por favor, me salvem!"
Quando Danforth Hulett foi entrevistado sobre o que pensava a respeito,
respondeu aconselhando que, para salvar o carneiro de Vermont, se suspendesse
a importação de artigos de lã da Inglaterra e os contrabandos
pela fronteira do Canadá.
O movimento político fez grande sucesso e nós sentimos que
fizemos o melhor possível para mostrar o apoio a Proctor. Ele deve
ter-se sentido feliz.
A Nova Inglaterra teve, sempre, muito orgulho do entusiasmo com que as
populações das suas cidades acorriam aos movimentos que envolviam
o interesse público. Todos, do mais ilustre ao mais humilde, podiam
apresentar suas sugestões. Os comícios pelo rádio,
de hoje, parece que se inspiraram nos costumeiros da Nova Inglaterra daquela
época.
A reputação, que gozava a Nova Inglaterra, de probidade na.
administração do interesse público é, pelo
menos em parte, devida ao seu sistema de realizar reuniões fóruns
em cada cidade, minimizando, com isso, as oportunidades de corrupção.
Os assuntos, ventilados em público, estimulavam a atenção
dos cidadãos para análise das suas soluções,
e isso resultava em maior eficiência administrativa e paz social.
Afinal, o povo americano deve o que é ao sistema de administração
que adotou. As negociatas e as outras formas de corrupção
se tornam difíceis quando a população inteira está
interessada em conservar-se bem informada e não há melhor
forma de conseguir isso do que fazê-lo através dos foros populares,
como os da Nova Inglaterra.
Os habitantes da Nova Inglaterra são meticulosamente interessados
nos assuntos nacionais. Não esqueço do modorrento dia de
verão, em que foi anunciado o assassinato do Presidente Garfield,
na minha pequena comunidade. Tais notícias, que hoje causam choque,
como que produziam uma suspensão de vida de toda a população,
naqueles tempos. Os jornais não noticiavam outra coisa além
das minúcias sobre o doloroso acontecimento. E muitas vezes entrava
a criatividade da imaginação do jornalista na notícia.
Lembro-me nitidamente do ponto em que eu me encontrava, na rua, quando
ouvi os gritos anunciadores: "O presidente Garfield foi assassinado!"
Era um dia quente de verão, pouco após a hora do jantar.
Estava tudo quieto e silencioso. Ouvia-se, apenas, o zumbido das abelhas
e de outros insetos e a poeira se levantava na corridas do homem que gritava
a notícia. Parei transfixado, enraizado no lugar onde me encontrava
corno se fora enterrado pela significação da notícia.
Poderia a América sobreviver à morte do seu Presidente?!
A custo readquiri equilíbrio emocional e corri pra casa levando
o nefasto relato a vovô e vovó.