CAPÍTULO XXVII
Lenha
O abastecimento de lenha cortada nas dimensões próprias para
o nosso fogo e suficiente para o ano todo, recebia, do meu avô, a
mesma preocupação do de carne de porco e de gado, do de trigo
em grão, do de farinha, do de melado. etc. Tudo o que o meu avô
fazia era bem calculado e cuidadosamente planejado. Ele não aborrecia
o varejista pois, de certa forma, o fora. Sempre que possível, preferia
comprar o que necessitava a grosso e do próprio produtor. Não
que ele tivesse qualquer prevenção com os intermediários
mas confiava em que comprando diretamente do produtor seria mais vantajoso.
A carteira de vovô era de camurça enleada por um longo tento
do mesmo material em muitas voltas. O desenleá-la exigia tempo,
que vovô aproveitava para considerar, com prudência, a verdadeira
e real conveniência da compra, e, muitas vezes ganhava o dia nessa
lucubração. Para ele, o processo de desenrolar o tento que
envolvia a bolsa, o punha fora de conversa e a salvo de compromisso: eram
momentos de graça.
Ele comprava lenha fraca e forte, de fazendeiros franco-canadenses
que as extraiam das encostas das montanhas. Pagava aproximadamente 1,75
dólares por metro cúbico; no comprimento de 1,20 m, colocado
em nosso depósito. Essa lenha, cortada em toretes para o fogão,
triplicava o número de achas.
A compra era feita no início do inverno e as entregas sem tempo
definido. No entanto, antes do rigor do inverno, toda a lenha, de várias
espécies vegetais, era transportada para o nosso depósito.
A quantidade era, sempre, ao redor de 20 metros cúbicos, empilhada,
medida, conferida. Tudo em ordem, vovô e o franco canadense iam para
a cozinha para as cerimônias finais do negócio.
Nenhuns deles sentava. Permaneciam em pé ao lado do fogão.
Vovô apoiava o cotovelo sobre o reservatório de água
quente: trocavam algumas palavras gentis, cabendo ao fazendeiro apenas
10 % da conversa, no seu inglês estropiado. No momento psicológico
propício, vovô tirava a carteira, com deliberada lentidão,
do canto noroeste do seu bolso traseiro e começava o processo do
desenrolar o longo tento.
Parecia-me que o franco-canadense se sentia inspirado e edificado por tomar
parte naquela cerimônia que vovô armava para o pagamento. Se
a importância fosse de milhões de dólares, o ato não
seria mais solene e expressivo. Não me lembro de outro vermontense
que tivesse um avô preocupado de guardar-se contra gastos supérfluos
mas, na verdade quando se tratava de soltar dólares e centavos,
qualquer deles se movimentava com notável preguiça.
Enquanto eu era menino, quem serrava a nossa lenha era o velhinho senhor
Rutherford, com sua serra de arco. Era uma operação demorada,
que se arrastava através do inverno. Com o passar dos anos, entrou
em ação a serra circular movida a cavalo. O "motor" era velho
e magro mas dava a sua contribuição andando monotamente,
em circuito, para produção da força. A serra chiava
contra as toras enquanto que o serrote permanecia, pendurado, em repouso.
Excetuando-se o cavalo, as demais partes envolvidas na operação
tinham vantagem na mudança do processo.
Depois de serrada, no comprimento apropriado para o fogão, a lenha
tinha que ser partida em achas convenientes. Essa tarefa era de um franco-canadense.
Chamava-se Benjamim e tinha um tórax de gorila. O machado em suas
mãos era como um brinquedo nas mãos de uma criança
mas os seus efeitos eram imediatos no despedaçamento das toras.
Muito raramente ele dava dois golpes. As toras se transformavam em achas
com as dimensões apropriadas, como por mágica.
Meus avós tinham alto senso de responsabilidade e, conhecendo a
minha capacidade para traquinadas, faziam o que podiam para moderá-la.
As minhas travessuras traziam os vizinhos em permanente preocupação
e era opinião generalizada que de mim nada de bom se podia esperar.
Vovô, por duas razões, chamava a si a maioria das tarefas
a executar: 1º porque era mais certo tê-las bem executadas;
2º atribui-las a mim era tarefa difícil e profundamente duvidosa.
Apenas uns poucos trabalhos eram atribuídos a mim. Colher maçãs,
peras, groselhas e morangos e, no início da primavera, recolher
a lenha que, picada pelo senhor Benjamim, fazia enormes montes e tinha
de ser empilhada no depósito, sob a fiscalização do
vovô. Cinco a dez cargas de carrinho de mão, e mais algumas
extras, aos sábados, iam aos poucos, reduzindo o monte mas a primavera
já ia bem adiantada quando o último pau de lenha, depois
de limpo da neve, fazia a sua viagem, no carrinho, para a pilha no depósito,
a disposição das exigências do fogão.
A lenha fraca, para fogo de curta duração, ficava
em pilha própria, separada da de lenha dura, fornecedora de bom
brazido.
O fogo, usado para os misteres da cozinha e, aos sábados, para aquecer
a água do banho, mantinha, ao mesmo tempo, o calor na cozinha. Próximo
às pilhas de lenha ficava o depósito de carvão. Durante
o inverno, todos os dias, logo depois do desjejum, vovô colhia as
cinzas numa lata e as despejava num cesto, tanto as de carvão como
as de lenha. Elas serviriam, na primavera para fornecer, lavadas, a potassa
com que se fazia um sabão pastoso e eficiente.
Vovô, após tratar as galinhas, recolhia os ovos, que
punha cuidadosamente nos bolsos, empilhava sobre o braço esquerdo
um bom feixe de lenha - forte e fraca, em proporção conveniente
- apanhava a lata em que conduzia as cinzas e entrava suavemente, de volta,
em casa.
Mais tarde voltava, duas ou três vezes, ao celeiro. Esses exercícios,
por certo, contribuíram para a preservação do bom
estado físico que manteve até a morte, aos noventa anos.
Minha avó compreendia isso e jamais tentou dissuadi-lo de movimentar-se.
O nosso fumeiro tinha capacidade muito além das necessidades da
casa e vovô fez um convênio com o senhor Sinclair Cruickshank:
este mantinha depositado ali os seus produtos e, em compensação,
assumia a responsabilidade da produção de
fumaça durante os períodos necessários.
O senhor Sinclafr Cruickshank era uma das figuras pitorescas da nossa comunidade.
Ainda posso vê-lo com o seu chapéu de abas largas, dobradas
de um lado, como os dos camponeses de Tirol, conduzindo pomposamente os
seus cestos com palha, de milho para fumaça num dos braços,
em direção ao nosso fumeiro. Diziam que ele usava espartilho
e se maquiava para parecer bonito.
Os nossos presuntos, após perfeitamente defumados, eram transportados
para o porão. A lembrança de uma fatia desse presunto, frito
com ovos fresquinhos, ainda me junta água na boca...
Quem provou o presunto da Nova-Inglaterra daquele tempo e, depois
é servido do presunto que existe hoje, tem vontade de chorar de
saudade.
O regime alimentar do vovô, autoprescrito depois de anos de experiência,
era o mais frugal possível. No jantar a frugalidade era ainda mais
pronunciada. .Constava, comumente, de uma xícara de chá verde,
quase, incolor, uma fatia de queijo e um bolinho de farinha de trigo ou
parte dele. Estou certo de que os nutricionistas atuais horrorizar-se-ão,
com a má qualidade da janta.de vovô. Mas ainda é necessário
que tais especialistas saibam que vovô nunca comeu queijo ou bolinho
frescos. Estes tinham que estar quase empedrados pela idade e, então,
eram cortados em fatias quase transparentes, quebrados em pedacinhos e
mastigados demoradamente. Será que já esclareci o fato? Se
não o consegui, aqui vai o meu último esforço:
nunca, durante os anos que convivi com ele, soube que ele tivesse tosse,
resfriado, constipação, insônia ou outra qualquer indisposição.
Também nunca o vi tomar uma pílula, uma colherada de poção
medicinal e, nem mesmo, o chá de hortelã de vovó.
Jamais consultou médico. Ele mesmo se cuidava. Mary Toley
dizia que ele, mesmo comendo pedra, sentir-se-ia em plena saúde.
Quando adoeceu, morreu. Aos noventa anos, ainda estava a raspar a neve
dos arredores da sua casa, como se fosse um homem vigoroso.
Não era costume na Nova Inglaterra que se prodigalizassem, em família,
manifestações de amor e ternura. Comigo não havia
permissão de nenhuma manifestação para com vovó,
senão um boa noite e um beijo pela manhã, e com vovô,
subir, algumas vezes, no seu colo e passar mãos na sua face, sentindo
as rugas e a barba. Estas manifestações eu as tinha
quando o via triste e suspirando, depois de ler cartas de meu pai. Eram
ocasiões memoráveis para vovô e para mim. Serviam para
levantar-lhe o ânimo e, também, levá-lo a esquecer
as traquinadas do endiabrado que tinha no colo.
Por alguma razão, vovô jamais demonstrou temor pelo meu futuro.
Parecia que ele confiava na minha capacidade de auto conduta, no sentido
de evitar a miséria e a cadeia (ou ambos), apesar dos meus desvios
ocasionais do bom caminho.
Os usos da Nova Inglaterra ainda impediam entrever as relações
de intimidade entre vovô e vovó. Se ele acariciasse ou beijasse
sua velhinha mimosa em público, seria em escândalo. Jamais
os meus avós chamaram-se pelos nomes, Pâmela ou Howard. Era
só "Pa" e "Ma" e nada mais. Quando em conversa com terceiros, eles
se referiam a "Sr. e Sra. Harris". No entanto, era manifestada por outros
sinais, a mútua devoção entre eles. Por exemplo: a
estreita solidariedade no asseio e na ordem em tudo a que ambos se dedicavam,
como fator de tranqüilidade, conforto, bem estar e paz.
Vovô não discutia com ninguém. Preferia calar mesmo
que ofendido. Vovó sempre contava este episódio ilustrativo:
contrariando os seus hábitos, ele, certa vez, levou vovó
a Boston, numa das suas viagens para compras. Ao passar numa rua de grande
movimento um bêbado investiu contra vovô como se fosse agredí-lo.
Vovô percebeu-o de imediato mas apenas desviou-se, tirou o chapéu,
curvou-se, dizendo delicadamente: "desculpe-me, senhor" e continuou andando.
Meus avós freqüentavam a igreja Congregassional da qual vovó
era membro. Em casa não havia prática religiosa, embora vovó
lesse a Bíblia regularmente nos trechos recomendados pelo ministro.
Certa vez, ao passar defronte a porta semi aberta da sala dos fundos, vi
vovó e o ministro de joelhos. Ele falava alguma coisa. Possivelmente
de Deus. Senti que não podia perturbá-la e passei sorrateiramente.