CAPÍTULO XXX

Adeus, Vovó

            Depois da morte do vovô terminei o ano em Princeton e voltei para passar o verão com vovó. Como é natural ela se mostrava freqüentemente pesarosa. Eu a sabia profundamente solitária mas jamais se queixava. Perambulava pela casa mergulhada em perplexidade. Às vezes me pedia para acompanhá-la ao jardim e, quando o sol mergulhava no horizonte, pois ela gostava muito de apreciar as tardes e os crepúsculos ao lado das montanhas do oeste. Comentava, encantada, o metamorfosear das nuvens e a quase imperceptível sucessão das cores, desde o cinza escuro ao rosa claro, ao rosa, ao alaranjado, ao purpúreo:
            "Que beleza, Paul! Pode alguma coisa ser mais majestosa?! É obra do Onipotente! Os  ocasos me infundem conforto, consolo e paciência. Nada de mal poderá vir do que oferece espetáculos tão esplendorosos às suas criaturas!"
             Raramente ela se referia, a vovô, embora eu o sentisse sempre presente nela. Certa vez falava dele num dos nossos vagares pelo jardim. Eis o que me disse:
            "Eu fui feliz, Paul. Tive o amor constante do seu avô por mais de sessenta anos. A maior benção para qualquer mulher é ter o amor constante de um bom marido e bom pai dos seus filhos. Nossa vida não foi só um mar de rosas, é verdade. Foi uma luta contínua e tivemos a nossa dose de tristezas e dores. Perdemos três filhos. Tivemos momentos de desânimo e de não sentir o valor da vida mas havia, sempre, tarefas a cumprir, deveres a obedecer. Havia o viver, como o morrer. E ninguém poderá ser maior amparo para a mulher que o seu próprio marido. Meus pensamentos foram os de seu avô e os dele foram os meus. Parece que eu estou morta pela metade de mim mesma".
            "Paul, eu, às vezes, me pergunto se você está consciente do quanto você significou para o seu avô. Ele chegou a pensar que a sua vida fora um fracasso. Como você sabe, ele alimentava grandes esperanças para o seu pai e não regateou despesas e cuidados para a educação dele. O desapontamento que seu pai lhe deu, despedaçou-lhe a alma. E, então, você, providencialmente, veio aqui pra nossa casa e as esperanças do seu avô ressuscitaram.
            Paul, você não pode falhar. Trabalhe duro e viva com honra e dignidade, pela lembrança e pelo amor de seu avô".
            E depois de um olhar triste e saudoso às cores do poente, ela voltou-se e, envolta no seu halo luminoso de bondade, entrou em casa.
            Esta não é a história da vida dos meus avós mas apenas um testemunho para retratar o caráter da gente com quem eu vivi, durante a minha infância, em Nova Inglaterra, e, em extensão, da gente daquela época. Não é uma autobiografia mas, apenas, episódios da minha vida. Da vida de muitos dos meus companheiros de infância, que já se foram deste mundo.
            Ao invés de retornar a Princeton, no outono, comecei a trabalhar na "Sheldon Marble Company", em West Rutland. Eu tinha que levantar às cinco da manhã, tomar o desjejum, andar uma milha (1.609m) até a empresa, acender as estufas, varrer o pó, enfim, deixar tudo em ordem para receber os diretores e empregados do escritório e, então, começava o meu dia de trabalho com os demais empregados, e quando houvesse executado as ordens recebidas, procurar o que fazer. Antes do fim do ano do meu contrato de trabalho eu subi de "office boy" a postos bem mais importantes. Foi uma experiência valiosa. Depois disso, vovó decidiu que seu neto devia estudar Direito.
            Durante os meus últimos dias em Wallingford eu senti que estava no vestíbulo da vida, e que o futuro encerrava uma enormidade de incertezas. Seria eu capaz de suportá-las e vencê-las ou voltaria derrotado e humilhado como papai?
            Havia, porém, uma diferença entre as nossas situações. Ele contava com um lar como abrigo e eu, muito em breve, não o teria mais. A casa sagrada dos meus avós já se estava fechando e jamais se abriria. Vovó fora viver os seus dias finais na casa confortável de sua filha Mellie, esposa de tio George. Meu pai era um dependente da tutela instituída por meu avô e por mais alguma ajuda que vovó lhe dava. Ela tinha de pensar em tomar conta da minha própria vida. De ser auto-suficiente.
            Talvez a cláusula intencional e oculta do testamento de meu avô fosse o estímulo, que eu sentiria, com a confiança dele na minha capacidade de cuidar de mim. Ele me proporcionara as mais aventurosas e felizes infância e adolescência que um jovem, pode aspirar e agora, afirmava que tinha confiança no seu neto, sua criatura em educação. Sempre senti orgulho, por essa confiança. Era um legado mais valioso e perene do que qualquer quantia em dinheiro! A proteção privilegiada que o trabalho duro e o sacrifício dos meus avós me proporcionaram, resultaram não só numa educação para bom aproveitamento escolar e acadêmico mas, também, para as vantagens da ordem e do império de respeito e de amor, que reinava naquele lar abençoado.
Sinto que meu avô infundiu-me alguma coisa da grandeza de que era revestido o seu espírito de tolerância. Aos olhos do menino que sentou à sua mesa e viveu ao seu lado durante anos, ele foi o mais extraordinário embaixador da boa vontade: jamais falou mal de qualquer homem, jamais criticou princípios políticos ou religiosos de outrem.
            Meu ano de trabalho passou depressa, Vovó e eu estávamos sós, com apenas, uma velha empregada, para aliviar vovó dos trabalhos da casa. Chegara o dia em que nos separaríamos. Alguma razão havia para que ela e eu ficássemos em comunhão àquelas últimas horas. Tia Mellie e tio George viriam à tarde para fechar a casa e levar vovó a morar com eles.
            Setembro começava e o dia estava esplêndido, embora os nossos corações estivessem emocionalmente doloridos. As horas de espera se passaram na sala de jantar. Vovó e eu, sentados no sofá estofado, em frente à mesa em que, durante anos, comemoramos a boa e saudável comida, e onde, antes de mim, papai tomara as suas refeições.
            O relógio de parede, que marcara tempo para três gerações, ritmava, solene, o ruído do seu pêndulo. Surpreendentemente tomei consciência de que ali nada mudara desde a noite saudosa em que papai, Cecil e eu, chegamos e tomamos aquela reconfortante refeição de pão, leite e geléia de amoras, anos antes! . . .
            A cozinha fôra o centro de atividades da casa, a sala de estar o lugar das decisões importantes. A sala de jantar foi o palco do alfa e do ômega da minha vida familiar, em Nova Inglaterra.
            Quando vovó pode controlar suas emoções falou:
            "Este momento não é inesperado, para mim, Paul, já o vivi muitas vezes. Pensei muitas vezes nas palavras que eu diria e agora não me lembro delas. Não devo falar de mim. É das mais altas esperanças do seu avô em você, que eu devo falar. Você sabe que ele centrava o grande interesse da sua vida em você, não sabe?"
            "Sei sim", respondi: "Estou certo disso e espero não falhar às suas expectativas de que viverei dignificando a sua memória".
            "É um propósito elevado, o seu", ela falou. "Mas você é capaz de muito mais do que isso e deve aproveitar as suas capacidades. Eu sei que você tem uma enorme curiosidade de conhecer o mundo. Seu avô e eu já notáramos e ele achava isso um dom abençoado, se você o associasse com a dedicação aos estudos e a um conveniente preparo cultural. Onde há uma vontade, abrirse-á um caminho, Paul. E você poderá abri-lo, meu filho. Poderá ser difícil, mas você poderá abri-lo. Lembro-me, como se fosse ontem, a noite em que você, seu pai e Cecil entraram nesta casa. Muita gente nos criticou por estarmos assumindo a responsabilidade de criá-lo, Paul. Já havíamos criado a nossa família e estávamos velhos. Você mesmo deve ter ouvido essas opiniões".
"Em verdade as ouvi, vovó", respondi: "Ouvi-as e, de certa forma as achei judiciosas".
            "Não houve nada disco, Paul. Varra essa idéia da sua cabeça: ao invés de perturbar a nossa vida, você deu-lhe mais alegria e mais riqueza. Aqueles que, criados os filhos, os viram afastarem-se, tiveram solidão na velhice. Quando a fonte do amor seca, não há razão para viver. A sua vinda aqui para casa foi dádiva da Providência. Tivemos a quem dedicar afeição. As preocupações decorrentes são a realidade da vida. Muitas vezes pensei, até que o injustiçado foi você por ter que viver aqui com dois velhos. Crianças precisam de irmãos e irmãs ao redor. Mas você encontrou as companhias da sua própria escolha na cidade e supriu com isso o que lhe faltou".
            Com essas palavras, vovó abria o coração.
            Olhando o relógio de parede, surpreendi-me por ver que já os seus ponteiros marcavam onze horas. Eu só tinha quinze minutos para tomar o trem. Quando me levantei para partir, vovó, pela primeira vez em sua vida - tanto quanto sei - rompeu em lágrimas. Eu abracei aquele corpinho tão frágil e disse entre soluços:
"Vovó eu voltarei logo para ver você". Ela só sacudiu a cabeça mas não disse nada...
            Na minha passagem pela casa do Juiz Button, cheguei para pedir a Ellen que fosse consolar vovó, ao que ela acedeu prontamente.
            Contornando a esquina da rua Depot, segui meu caminho com a imagem nítida do meu avô com a lanterna a iluminar o caminho, quando da nossa chegada a Wallingford. Havia o alvoroço usual do trem das onze e quinze. Lá me fui com a alma em tumulto vendo passarem objetos e lugares tão meus conhecidos e irem ficando distantes. Eu me sentia terrivelmente só. Vovó era a minha última guarida e a chave da porta giraria, fechando-a, dentro em pouco.
            Recebi freqüentes cartas de vovó, algumas das quais as conservo carinhosamente.. Ela contava-me todas as fases da sua vida na casa de tia Mellie. Por exemplo: a minha prima estava em viagem pela Europa em companhia de bons amigos e os incidentes interessavam muito a vovó. Era-lhe fator de orgulho ter uma neta na Europa. Ela jamais imaginara que isso acontecesse; no entretanto Mattie jamais seria a mesma, depois da viagem. Mencionava, também o comportamento dos demais da família e tudo o que era feito para que ela se sentisse bem.
            Um ano e um mês da data da minha partida e, então um estudante de Direito na Universidade de Iowa, recebi um telegrama de tio George anunciando a morte de vovó durante a noite. Não houvera nenhum sinal de aviso. Ela simplesmente dormira para não mais acordar.
            Não assisti aos funerais mas papai, mamãe e outros membros da família estiveram presentes. Eis a nota do "Rutland Herald".
            "Partiu para Wallingford o cortejo fúnebre dos restos mortais de Pâmela Harris, viúva de Howard Harris, de Wallingford, e mãe da senhora George Fox, desta cidade. O cortejo foi acompanhado pelos familiares e amigos. Aconteceu num belo dia em que as cores das montanhas e arredores se mostravam claras e deslumbrantes, enquanto o cortejo seguia, ao longo do vale do "Otter Crek" (Arroio Otter) para o cemitério de Wallingford, onde foi o corpo da senhora sepultado ao lado do de seu marido. O Herald apresenta seus sentidos pêsames à senhora George Fox e seus familares, louvando a personalidade da morta e reconhecendo que a beleza do dia de sua morte foi homenagem à beleza e pureza da sua longa vida".
            Assim vovó voltou à sua terra. Teria sido um pecado execrável deixar os corpos de vovô e vovó separados. Toda a sua vida e a maior parte da de vovô se passaram ali, no vale. Seus filhos ali nasceram e cresceram e três deles ali estavam sepultados. Durante a sua infância, vovó traquinava nas colinas ao redor e acima do local do cemitério Green Hill; colhera flores e frutos nas vizinhanças e zelara, no solo do cemitério, do local onde jaziam as suas criaturas queridas.
            A sepultura dos menores da família está tão ao pé da colina que dela pode ouvir-se o marulhar da fonte na montanha. Aí estão os corpos de Frances nº 1 e de Frances nº 2, o da filha mais velha Mary Reed e o de seu marido.
            Ao lado do túmulo dos Harris estavam os dos vizinhos, os Martinales, os Button etc. O cemitério de Green Hill tinha, sim, o direito de reclamar os corpos de meus avós. Seria injusto o contrário. Nosso vale foi a concretização da idéia de Paraíso de vovó.
            Vovó acreditava na ressurreição e, como sempre ela teve dificuldades de comunicar-se com estranhos, será uma benção estar rodeada de conhecidos ao soar a trompa do anjo Gabriel. A visão mais gratificante para ela, na manhã da ressurreição será a saudação do Juiz Button, com sua manta cinza sobre os ombros: "Bom dia, senhora Harris, vamos ter hoje um lindo dia"!
            Procuro, freqüentemente, visualizar os funerais de vovó, o cortejo seguindo, vagaroso, o curso do rio, o preguiçoso e barulhento Otter Creck comprimido pelas colinas multicoloridas. A última visão que a nossa gente guardou da sua expressão na urna mortuária, eu a imagino com vívida nitidez, como se eu a tivesse tido, em realidade. Posso ver suas mãos laboriosas inertes sobre o peito e a saliência do osso do seu punho acidentado, sua insígnia de honra. Nada do que os manicuristas e os salões de beleza podem fazer, para embelezamento de mãos de mães e avós, poderia comparar-se com a formosura do amor e do labor daquelas mãosinhas enrugadas e de punho aleijado de vovó. Cada uma das oitenta e nove libras e todas as frações de peso do corpo de vovó foram ornadas e iluminadas de serviço amável, o ingrediente que fez a sua vida sublime.
            Por mais de 50 anos o calor do sol primaveril faz brotar a vida, com grama e flores sobre a sepultura do pequeno cemitério; o sol do verão dá-lhes maturidade e os ventos do outono sopram sobre vovô e vovó, miríades de folhas de "maple", que também cessaram de viver e necessitam de um lugar calmo, para permanecer e descançar. As nevadas de mais de meio século vêem formando camadas de proteção sobre o lugar de repouso dos meus saudosos avós.
           Por mais de sessenta anos o casal conduziu, solidário, a cruz que lhe coube, porque isso o fortalecia. Foi um prêmio, concedido pela Providência, que vovó ficasse de guarda. Havia muitas coisas pequeninas a fazer e ela era quem poderia fazê-las. Vovô, sem ela, por certo morreria logo em seguida. Muitas vezes ao dia ele teria estendido a mão trêmula para ela e muitas vezes esqueceria a sua ausência e, pois, a cada passo a ferida sangraria e a dor o estrangularia. Sim! Foi uma benção que o forte, meu avô, se fosse e ficasse a fraca, a flébil e delicada vovó, para terminar a missão do casal.
            Quando Thoreau assistiu ao machado dos lenhadores destruindo a floresta, clamou:
            "Graças a Deus eles não podem destruir as nuvens! Há coisas eternas que a fúria destrutiva dos homens não poderá alcançar. Pensar nisto é algo que nos põe tranqüilidade e paz na alma. As estrelas ainda brilham, o sol ainda se levanta e se põe. As montanhas continuam montanhas, os pássaros ainda cantam. Os regatos continuam a murmurar nos seus cursos. O mundo ainda continuará por muito tempo sendo um lugar muito belo. Há qualidades indestrutíveis no espírito do homem. O amor de mãe é imortal e, mesma roído pela terra, ele renascerá. A coragem e o espírito de sacrifício iluminarão, sempre, as sombras de esperança. A fé dominará galhardamente as tempestades que tentarem varrer a terra.
            Vocês não destruirão as nuvens! O espírito do homem é indestrutível. As maiores belezas da vida são imortais... sobreviverão a todas as hecatombes!