CAPITULO XXXI
Cinco Anos de Aventuras
Saudoso dos meus tempos de meninice, eu continuava, monotonamente cumprindo
o meu curso universitário, aguardando notícias dos funerais
de vovó.
Faltava-me aquela quietude ordenada em que eu crescera e, muito mais, a
amorosa solicitude dos meus avós. Sonhava com as montanhas de Vermont,
tão minhas conhecidas, e chegava a sentir lágrimas brotarem
quando, eventualmente, eu avistava as do oeste.
Montanhas, minhas montanhas
Das correrias festivas,
Das traquinadas, das manhãs
Da minha infância tão viva!
Que saudades doloridas
De vocês, minhas queridas!
"I am homesick for my mountains
My heroic mother hills,
And the longing that is on me
No solace ever stills". (Bliss Casman)
No ano anterior, em viagem para Iowa, o menino de uma aldeia vermontense
parou durante uma semana em Chicago, onde c burburinho contínuo
da grande cidade ocidental fascinou-o. Aquilo era o oposto ao vale, mas
ele sentiu vibrar a vida, ali. Era campo para estudo da natureza humana.
Seria ali o lugar onde os homens se encontravam? E qual seria o chamariz
que os atraia? Por quê se reuniriam? A que propósitos o faziam?
Por quê alguns eram bons e outros maus? Por quê apenas alguns
pareciam sacrificar-se? Sentir-se-iam felizes com isso? Por quê?
Por quê muitos deles esbanjavam a saudade e as qualidades morais?
Como esta gente interpretava a condição humana? Será
que o conceito de vida e os preceitos de conduta ditados e praticados por
vovô eram verdadeiramente sábios, ou ele seria um velho ultrapassado?
Durante o seu primeiro ano em Iowa, aquele rapaz estudava legislação
nos escritórios de Stevenson e Whisenand, em Des Molnes. Mas, à
chegada do verão, permitiu-se horas de folga para alguns passeios
e algumas pescarias no lago Okaboja, afrouxando, assim, a permanência
absoluta nos estudos.
No outono iniciou-se no departamento legal da Universidade Estadual de
Iowa e graduou-se em junho de 1891. As características da Universidade
de Iowa eram diferentes das que observara em Vermont e Princeton. Ali a
média de idade dos estudantes era mais alta. Muitos deles eram oriundos
das fazendas vizinhas e outros exerciam atividades de ensino para suprir
as necessidades materiais da permanência na Universidade. Eram homens
mais maduros que, na sua maior parte, já haviam ultrapassado a idade
de despreocupação.
Havia seriedade e interesse no ambiente estudantil. Grupos se reuniam,
para debater princípios de teoria do Direito e os processas da aplicação
das leis.
Quando este, que agora escreve, recorda as experiências passadas
em outras escolas e procura julgar se o que nelas aprendeu justificaria
o sacrifício e as esperanças do seu avô, fica em dolorosa
dúvida.
O que de melhor lhe ficou delas todas, foram os contatos que estabeleceu
com os colegas. Quanto à assimilação de cultura, só
lhe ficou a aprendizagem de gostar dos bons livros de autores de todos
os países.
Durante os dias finais na Universidade de Iowa, o seu grande interesse
e absorvente curiosidade era conhecer os caracteres dos homens. Os dos
seus compatriotas e os dos demais países. Mas como fazê-lo?
No fundo das suas cogitações, aquilo lhe parecia urna idéia
absurda. Uma quebra insólita dos padrões convencionais de
conduta. Todos os seus colegas, sensatos, começariam a cuidar da
vida. Todos eles, dentro de sessenta dias, estariam exercendo as especialidades
das suas preferências, nas cidades de escolha. Se o rapaz fizesse
o que estava pensando, iriam, os parentes dizer que ele não tinha
juízo.
Ocorreu, então, um incidente que influiu bastante na decisão.
Um dos paraninfos, no início da cerimônia de formatura da
turma, advogado experimentado, afirmou que seria aconselhável os
formandos fazerem estágio de cinco anos em pequenas cidade, antes
de se fixarem definitivamente, num centro maior.
Essa sugestão removeu as dúvidas que ainda persistiam na
mente do formando. Ele se daria cinco anos de estágio. Não,
porém, numa só cidade, mas viajando por quantos lugares do
mundo fosse possível. Será uma aventura! Após isso,
aquele menino de Wallingford colocará a sua placa de advogado sobre
a porta do seu escritório, numa grande cidade. Talvez, Chicago.
Foi resolução definitiva. O moço sentia que o seu
interesse absorvente por conhecer a vida familiar dos homens, no mundo,
dar-lhe-ia subsídios para melhor compreender a alma humana.
Por quê as diversas raças divergiam nos seus modos
de vida? Ele havia lido, nas bibliotecas das universidades, escritores
ingleses, franceses, alemães, russos e escandinavos mas o que lera
não bastava à sua curiosidade. Somente
o convívio com esses povos é que poderia fazê-lo.
Para manter a resolução de perambular pelo mundo, era necessário
que o moço aceitasse qualquer serviço que lhe oferecessem.
Fosse braçal ou intelectual. Vencesse centenas de quilômetros,
cruzando montanhas e perambulando pelas ruas das grandes cidades. Dormisse
ao relento e em pensões baratas, nos subúrbios das cidades.
Até à fome se submetesse. Os seus pensamentos não
despregavam do seu vale e do conforto que ali gozara, na casa avoenga.
Faminto, o que afluiria, de imediato, à sua lembrança? Não
seriam os bolos de trigo cobertos com manteiga e xarope de "maple", nem
presunto com ovos, nem feijão com carne de porco? Pensaria, isso,
sim, nas delícias que conhecera na sua infância: nos bolinhos
de arroz da sua avó. E as poucas vezes que se sentia indisposto,
meio doente, nas suas andanças, doer-lhe-iam as saudades dos chazinhos
aromáticos, dos escalda-pés e da terna solicitude da sua
avozinha querida.
Enquanto alguns dólares aqueciam-lhe o bolso, fazia férias,
pescando e caçando. Mas isso não demorou muito e ele chegou
a São Francisco praticamente sem dinheiro. Um colega que trabalhava
no Jornal "The Chronicle", de propriedade de M.H. de Young, conseguiu-lhe
colocação, como repórter, à base de pagamento
por produção mas a competição era terrível.
Outro repórter do “The Chronicle" era Harry C. Pulliam, de Louisville,
que mais tarde tornou-se Presidente da Liga Nacional de Basebol.
Harry e Paul tornaram-se íntimos e decidiram percorrer juntos o
Estado da Califórnia. Dentro de três dias estavam trabalhando
como tarefereiros numa fazenda de fruticultura em "Vaca Valley".
Depois de economizar, ali, algum dinheiro partiram para Fresno,
através da cadeia de montanhas Trailess, tendo explorado o vale
Yosemite, então pouquíssimo conhecido. Em Fresno tomaram
trabalho numa indústria de passas, no setor de embalagem. Finalmente
chegaram em Los Angeles, onde Paul conseguiu empregar-se como professor
do L. A. Business College.
Após nove meses Paul foi para Denver onde, demonstrando invejável
versatilidade, atuou como ator no velho teatro da Fifteenth Street. Esta
aventura atraiu mais publicidade de que ele desejava. Recebeu cartas de
velhos amigos criticando-o e lamentando o seu fracasso como advogado.
Escalou o pico Pike e assegurou-se de que ainda conservava a resistência
e a habilidade que adquirira nas Green Mountains e em Sierra Nevada.
Foi admitido no grupo de repórteres do "Rocky Mountains News" onde
permaneceu até que lhe surgisse oportunidade de experimentar-se
vaqueiro, num rancho próximo a Platteville, reunindo gado extraviado,
a cavalo, por dias e dias. Voltando a Denver trabalhou no "The Republican",
onde encontrou alguns companheiros do jornal de São Francisco que
se dirigiam para o leste.
A Flórida era outra terra que Paul sonhava conhecer. Havendo conseguido
uma passagem de trem, para lá se dirigiu. Empregou-se como recepcionista
noturno no melhor hotel de Jacksonville, o St. James. Não gostou
do trabalho e demitiu-se logo, para tornar-se caixeiro-viajante para George
W. Clark que negociava com mármore e granito, ramo em que Paul já
adquirira alguns conhecimentos na Sheldon Marble Company, em Vermont. George
Clark teve grande influência na vida de Paul. Eles se tornaram amigos.
Muito mais tarde George foi o 1º presidente do R.C. de Jacksonville.
Em março de 1983, Paul foi para Washington assistir à posse
de Grover Cleveland, Presidente da República dos EUA. Enquanto permaneceu
ali, trabalhou temporariamente no "Washington Star". Foi, então
para Louisville, esperando que Harry Pulliam, ali residente, lhe conseguisse
trabalho no "The Courier" ou no "The Comercial", o que não aconteceu.
No entanto, empregou-se numa outra firma do ramo mármore e granito,
que lhe deu oportunidade de viajar pelos Estados de Kentucky, Tennessee,
Georgia e Virginia.
A sua chegada em Norfolk, Virginia, demitiu-se e embarcou para Filadélfia.
Desde quando Tom Brown de Rughy se tornara o herói, como personagem,
ao tempo em que lia Dickens Trackeray e Scott, Paul passou a desejar ,ardentemente,
conhecer as ilhas britânicas Para isso estava disposto a enfrentar
quaisquer sacrifícios. Na secção "Procura-se" do jornal
de Filadélfia lera um anúncio de uma firma de Baltimore,
que necessitava de um condutor de gado, embarcado em navio, com destino
à Inglaterra. Antes da madrugada seguinte, lá seguiu ele
a aprender outra atividade a fim de conhecer a gente do lado oposto do
Atlântico.
Foi uma viagem sofrida. Incríveis privações e duras
experiências! Alimentação de péssima qualidade.
Quase intragável. Tripulação, a mais depravada e malvada
que se possa imaginar. Foi essa, para Paul, a mais dolorosa experiência.
Liverpool e os seus subúrbios foram tudo o que ele pode ver, na
Inglaterra. Teve que regressar no mesmo navio. Foi-lhe uma frustração
terrível na primeira oportunidade. A viagem de volta aos EUA foi
menos penosa embora não houvesse, para os vaqueiros, colchões,
nem cobertores, para dormir, e nem talheres para as refeições.
Um "cozidão" de batatas com alguns retalhos de carne e biscoitos
mofados eram a principal refeição. Sujeira, baratas, piolhos
e outros insetos nojentos pululavam e os banhos, freqüentemente necessários,
só em água fria.
Enquanto aguardava, em Baltimore, oportunidade num navio mais confortável
,Paul, empregou-se num campo de feno em Ellicott City. Era trabalho árduo
para ele. Esforçou-se para desempenhá-lo a contento. Transferiu-se
para tarefas mais leves da sede da fazenda a troco de alimentação
e morada. Depois, passou a ganhar 1 dólar por dia, trabalhando numa
fábrica de conservas de milho. Aí teve conhecimento de outro
embarque de gado, numa linha que oferecia melhores condições
que a primeira. Correu a Baltimore e conseguiu o lugar de subcapataz no
"Michigan", cujo destino era o cais de Tilbury no Tâmisa, a 48 km
de Londres. Que sorte, meu Deus!
Com um amigo que fizera a bordo, percorreu as ruas de Londres visitando
o Parlamento e todos os lugares famoso, por acontecimentos históricos
ou pela ficção dos escritores. No entanto, só puderam
acomodar-se numa pensão barata no distrito de Whitechapel, localidade
pela qual ele se interessava.
Como o navio, no regresso, tocou Levansea, para carregar, Paul ainda teve
oportunidade de ver alguma coisa no país de Gales.
De volta aos Estados Unidos resolveu. de imediato, ir a Chicago assistir
à feira mundial de 1893. Aquece ambiente festivo foi um gostoso
interlúdio na voluntária peregrinação que se
impôs Ai ele concebeu a certeza das possibilidades futuras da atraente
metrópole. Ele só tinha o dinheiro necessário para
a passagem de trem e nada mais. Por sorte encontrou um antigo colega de
bancos escolares, que trabalhava na feira e ofereceu-lhe hospitalidade.
Um dia, ao visitar o pavilhão de Vermont, teve uma surpresa: reconheceu,
entre os que apreciavam a exposição, de costas, os seus primos
Ed e Mattie Fox, de Rutland. Antes que eles o vissem ele abandonou o pavilhão.
Não queria que seus parentes o vissem necessitando de dinheiro,
como estava.
Uma cidade fascinante entre todas as cidades americanas era New Orleans.
Sob muitos aspectos diferente das outras, mas de difícil acesso
para Paul. Eis porque: Paul jamais viajou sem que a sua passagem fosse
paga pelo seu próprio esforço. Jamais foi um clandestino.
Ou pagava suas viagens com dinheiro ganho honestamente ou as pagava com
trabalho. Estava sempre pronto para aceitar qualquer trabalho, através
do qual ganhasse a própria manutenção e dava, em tudo
o que fazia, o máximo das suas capacidades. Se alguma vez deixou
a desejar os seus empregadores, foi em razão das suas limitações
físicas ou mentais. Nunca por desídia.
Se emprestasse dinheiro, pagava religiosamente.
Um empréstimo do seu colega, em Chicago, permitiu-lhe ir a New Orleans.
Comprou um jornal, leu um anúncio e empregou-se como colhedor de
laranjas na paróquia de Plaquemine. O pomar, como o depósito
das frutas, estava situado ao lado do delta do Mississipe, próximo
ao desaguadouro do "pai das águas". O serviço de colher,
selecionar, embalar em caixas e embarcar as frutas durou vários
dias sem alterações. De repente, irrompeu uma violenta tempestade.
Um horrível furacão levantou as ondas numa ressaca medonha.
Os colhedores de laranja, na escuridão da noite, salvaram-se como
puderam patinando na lama ou nadando nas águas crespas, salvando
mulheres e crianças e se acoitando no único lugar seguro:
o depósito Pizatti. Para salvarem-se, arrombaram a represa, trabalhando
com machados e alavancas, a fim de escoar as águas para o leito
do rio. Quando amainou a tempestade, a crista da barragem estava eivada
de cadáveres de animais: cavalos, vacas, porcos, galinhas e aves.
Aquela tempestade de 1893 ceifou centenas de vidas e causou enormes danos
materiais. Apesar dos anos, perdura o horror e o sofrimento que aquela
intempérie causou.
Voltando a New Orleans, o esforço de conseguir trabalho nos jornais
foi infrutífero. Havia muito o que ver e estudar naquela cidade
histórica mas a avidez do moço por aventuras havia-se abrandado,
de alguma forma. Seus pensamentos voltaram-se para a hospitaleira gente
da Flórida.
Ainda estava disponível a sua vaga na marmoraria em Jacksonville
e George Clark concedeu-lhe o mesmo território que percorrera anteriormente:
os Estados sulinos, Cuba e as Ilhas Bahamas. Eram íntimos amigos,
o empregado e o empregador. Depois de um ano Paul notificou George da sua
intenção de ir embora.
George argumentou:
"Há outra região que você queira conhecer?"
"Sim" respondeu Paul " Há, mas eu duvido que você ache conveniente
mandar-me pra lá".
"Onde fica, essa região?"
"Na Europa", respondeu Paul.
Duas semanas depois o viajante navegava, por ordem do seu empregador e
amigo, para estudar as regiões produtoras de granito da Escócia
e as de mármore da Holanda, Bélgica e Itália, no sentido
de importar produtos.
Escrevendo, poderíamos consumir muitas páginas para relatar
os acontecimentos extraordinários presenciados na Grã-Bretanha,
Irlanda, França, Suíça, Itália, Áustria,
Alemanha, Bélgica, e Holanda. Como visitante dos senhores I. A.
McFarland de Carrarra, Paul recebeu homenagens raras. Entre outras coisas,
o casal McFarland insistiu para que aceitasse empréstimos, em dinheiro,
para viajar por todo o continente. O empréstimo foi aceito e, naturalmente,
pago.
Depois do regresso, passaram-se muitos meses em que Paul esteve colaborando
com George Clark num projeto de construção de prédios
de departamentos, perto de Jaeksonville e, então, voltou seu interesse
para o norte, para Chicago. George insistiu com ele para permanecer em
Jacksonville argumentando entre outras coisas, o seguinte:
"Sejam quais forem as vantagens de ganho que Chicago possa oferecer-lhe
eu as cubro se você ficar comigo". A isso Paul respondeu
"Estou certo de que você o faria! Mas não quero ir ganhar
dinheiro em Chicago. Quero, isto sim, viver uma vida".
Paul ainda foi para New York e ali permaneceu durante algum tempo, já
que desejava conhecer, mais intimamente, a grande cidade. George, seu amigo,
proporcionou-lhe ainda essa gentileza: removeu o seu gerente dessa cidade
para Jacksonville e colocou no seu lugar, temporariamente, Paul.
Oh! George Clark, grande e generoso amigo!