CAPÍTULO XXXII

Coloca-se uma Placa

            Três meses antes dos cinco anos que me concedera para correr mundo e conhecer a alma humana cheguei a Chicago disposto a iniciar-me como defensor da lei. Minha juventude se fora. As aventuras e as viagens proporcionaram-me maturidade. Freqüentemente os homens, após haverem desprezado as oportunidades de adquirirem sabedoria, terão de suportar duras experiências. Afinal, assentei a vida ao início da primavera de 1896, quando a seiva subia nos "maples" do meu vale e iniciava a reverdecê-los.
            A visão do companheirismo mundial dos homens de negócio e profissionais ainda não fora concebida. Havia necessidade de mais experiências. Mas os fundamentos já estavam postos.
Seria de surpreender que uma mente sensível, havendo encontrado tanto bem em meio à maldade, tantos fatores de amizade em ambientes destituídos de afetividade, tanta razão, para confiar e ter fé nos homens de negócio, pudesse visualizar aquele ideal?
            Chicago passava por tempos sombrios. Eu os tivera, também, e não queria acreditar que os teria ainda piores. Eu me considerava especialista no suportar dificuldades. Contava com os meus recursos muito limitados, e esperava que, logo após haver afixado a placa indicativa do meu nome como advogado, teria algum trabalho. Mas as coisas não eram tão fáceis. Nos primeiros tempos as minhas esperanças se reduziram a um grande zero.
            Eu passava a maior parte do tempo nos tribunais a fim de familiarizar-me com os procedimentos legais e lia, diligentemente, os casos em litígio e acórdãos mas nenhum cliente me procurava. Tentei trocar idéias com outros  advogados em início de carreira mas isso não me rendeu subsídio aproveitável. Alguns deles tinham recursos, outros tinham parentes ou amigos influentes; outros, como eu, estavam lutando.
            Seria muito longo e desnecessário relatar como eu, de pequeno escritório particular, passei a ampliá-lo admitindo colegas como sócios e reservando-me a chefia. Os clientes foram aparecendo, de início paulatinamente e, depois, em aceleração crescente. Tornei-me sócio do Clube dos Advogados, do Clube de Imprensa, do "Bohemian Club" e da Associação Comercial, de cujas atividades passei a participar ativamente.
No entanto, ao jovem, que passara cinco anos em aventuras de múltipla característica, e que agora se tornara um jovem profissional, não era de se esperar que se transformasse, de pronto, num cidadão sereno e tranqüilo. O que sentia, prementemente, era solidão, principalmente aos domingos e feriados. Tentei travar conhecimento com outros jovens que, oriundos do meio rural ou do calor da convivência em cidades pequenas, tivessem vindo tentar a vida em Chicago. Demorei muito a encontrá-los e foi difícil a aproximação.
            Eu sentia necessidade premente de rever a aldeia da minha infância, até que resolvi ceder ao impulso de o fazer. Tio George, a quem eu me sentia um grande devedor, foi apanhar-me na estação, em Rutland e levou-me para a sua casa num "faeton" puxado por um sucessor do baio Billy. Tio George permanecia em atividade profissional, mas moderada. Reservava-se os casos menos preocupantes. O prédio pomposo da antiga estação havia sido consumido por um incêndio e em seu lugar, levantara-se um despretencioso edifício todo aberto. O pregão dos agentes carregadores dos três principais hotéis, o Bates House, o Berwick e o Bardwell, com as suas curiosas características de entonação e gíria publicitária, já não mais se ouvia e a rua do Mercado e a avenida principal, afiguravam-se para mim, que viera de Chicago, como as ruas do tranqüilo bairro de Goldsmith.
            A casa de tio George era na "Cottage Street", que agora se me afigurava muito mais estreita, do que me parecia na infância. A satisfação que tia Mellie e Mattie, minha prima, demonstraram ao receber-me, foi sincera e genuína. Muitas coisas haviam mudado no seio da família Fox. O ruído alegre, do riso e das vozes animadas da juventude feliz, desaparecera. Os filhos dispersaram-se pelos caminhos da vida. Tio George passava horas no alpendre oposto à rua, em silêncio, como se estivesse mergulhado em meditação. Era, ainda, uma criatura impregnada de bondade mas tornara-se extremamente calado. Só falava quando as circunstâncias o exigiam.
            Quando lembrei o baio Billy, no entanto, a afeição, que dedicava ao seu irracional mas fidelíssimo auxiliar de trabalho, o animou e ele saiu do seu mutismo, declarando:
"Sabe, Paul, eu possuí e me servi de muitos e muitos cavalos, durante os meus tempos de intensa atividade, todos eles bons mas o que mais se aproximou de ser humano, sendo cavalo, foi Biliy. Era tão afetuoso quanto uma criança porém muito mais obediente. Sabia das coisas e aparentava ter suas próprias idéias mas não era teimoso. Cumpria fielmente as minhas ordens, embora as soubesse erradas, como demonstrava. Eu o compreendia bem mas ele me compreendia muito melhor. Muitas vezes eu me entregava às suas orientações, sempre melhores que as minhas, a menos que estivessem envolvidos fatos não sabidos por ele. Eu não lhe confiaria é óbvio, o tratamento de qualquer paciente mas, na jurisdição que lhe cabia, a última decisão era a dele".
            Mattie e eu fomos a Wallingford no dia seguinte à minha chegada em Rutland. Cada curva da estrada me despertava recordações da meninice... Era o mesmo caminho percorrido nos funerais de vovô, naquele longínquo dia de outubro.  O mesmo caminho que eu, tantas vezes, trilhara! Passamos os sítios de Jap Newton, de Robert Morel e dos Hudson; a casa de Stafford e, finalmente, chegamos ao velho solar, o querido solar da minha infância. Fomos ao cemitério reverenciar a memória dos nossos queridos avós.
            Tomei quarto na estalagem de Wallingford e permaneci dois dias revendo velhos amigos e os lugares das minhas reinações. Anna Laurie Cole, minha professora na escola dominical, foi a eficiente auxiliar para que eu pudesse ligar o meu palpitante presente ao passado saudoso. Felizmente, no momento em que escrevo, ela ainda vive e é a ligação dos meus dois períodos de vida.
            Visitei, um por um, os lugares que me deixaram recordações mais vivas. O poço em Otter Creek, próximo à ponte, onde nadávamos nus e nos exibíamos aos passantes, saltando do alto das pedras às águas, muito mais com a intenção de causar-lhes admiração pela nossa coragem do que para esconder-lhes a nudez. Fiquei triste por ver aqueles lugares invadidos por vegetação aquática. Sob outros aspectos, Otter Creek não mudara. A lagoa Fox, do meu passado glorioso, lugar da nossa mais alta preferência, em todas as estações do ano, só desdenhada nos momentos encantados que passávamos em Little Pond.
            Depois visitei a "cama de gelo" (Ice bed) o Córrego das Crianças (Child's Brook), as bases e o alto das montanhas.
            Durante os dias daquela visita às plagas que tanto amei, relembrei, surpreso, episódios da minha infância, que haviam desaparecido do campo das minhas lembranças, pela turbulência dos anos que os seguiram. Lá do alto da montanha, introvertido nas minhas reflexões, presente no meu vasto campo de visão o vale por onde corria tranqüilo o Otter Creek, o menino irrequieto, que eu fora, invadiu-me, de súbito, a alma e dei-me conta que ele ainda estava presente no homem. Fundamentalmente eu era o mesmo, apenas mais preocupado com a realidade da vida. Mais maduro.
            Os dois velhinhos, cujos ossos, jaziam, pacificamente, no seio terra, no cemitério que aparecia no fundo do vale, tinham-me esculpido a personalidade como um artista esculpe uma imagem no gesso ou no mármore. Os seus ideais passaram-se para mim de maneira tão suave e gradual que, nem eles nem eu, pudemos ter consciência disso. Eu apenas começara a cultuar aqueles ideais, mas eles já estavam ali, presentes. Os princípios de vida dos meus avós eram cristalinos. Eram mais nítidos e palpáveis do que se estivessem gravados em letras gigantescas, nas paredes graníticas da majestosa "White Rocks", as palavras: integridade, frugalidade, tolerância e altruísmo.
            Por momentos, nos meus devaneios ali nas fraldas das montanhas, eu sentia remorsos por não estar no meu trabalho.
            Havia tanto que fazer e tão pouco tempo para fazê-lo e eu ali inativo. De repente, porém, surgiu-me na consciência o pensamento que os homens tinham o direito de sonhar e não havia lugar mais apropriado à permissividade desses meus sonhos do que a quietude e o isolamento daquelas montanhas.
            Um dia, após o esforço de escalar um rochedo e saltar uma cerca de arame, que dividia duas propriedades, parei para tomar fôlego e divisei, lá em baixo, além dos pastos onde as vacas pastavam placidamente, homens colhendo feno. O longínquo ruído das ceifadeiras eram uma música doce para os meus ouvidos.
            O fazendeiro parcimonioso movia, ritmadamente, a foice na borda e nos cantos da plantação, para aproveitar as remanescentes moitinhas de capim e trevo eivados de florinhas silvestres. Os homens contratados amontoavam o feno curado em medas, para facilitar o transporte aos sotões dos celeiros, donde, durante o inverno que cobriria os campos de neve, sairia para alimentar os animais. Eu estava muito distante para sentir o aroma bom do capim cortado mas absorvia a tranqüilidade agreste da cena e a depositava no museu das minhas lembranças felizes.
            Recordei o fato de que muitos dos meus sonhos se realizaram, de alguma forma. Eu visitara o pais de Tom Brown, de Rugby e Deford, de Shakespeare e Dickens; Buns e Scott; eu me havia enebriado com o encantamento dos lagos de Killarney, com as nuances maravilhosas do por do sol nos Alpes e até a luminosidade do céu da Itália.
            Essas e muitas outras maravilhas existentes nó mundo eu tivera o privilégio de presenciar, sem o auxílio de vovô mas através da têmpera que ele instalou em mim para que eu suportasse o trabalho pesado, os perigos, a frugalidade e, até, a fome. É válido sonhar se o sonhador faz realizarem-se os bons sonhos. As minhas férias terminariam e eu teria que reassumir o trabalho árduo.