CAPÍTULO XXXIII
O 1º Rotary Club
De volta a Chicago, voltei a alimentar-me mais humilde e sofrivelmente,
apesar do apetite continuar tão voraz como sempre.
Os dias úteis da semana, embora me trouxessem algumas frustrações,
ofereciam-me a compensação de conservar-me ocupado com os
deveres profissionais, esquecendo os meus amargores espirituais. Domingos
e feriados eram dias monótonos. De manhã podia ir à
igreja, ao centro da cidade, mas às tardes eu caia em solidão
e parecia-me que o tempo parava. Assaltavam-me as saudades do meu vale
querido em Nova Inglaterra e das presenças calorosas dos meus amigos.
Perambular pelos parques da cidade não satisfazia: havia muito artifício
e, entre os milhares de transeuntes, não aparecia um só rosto
conhecido. Nada como um parque de cidade grande, nas tardes de domingo,
para despertar o senso de solidão. A presença de uma multidão
de desconhecidos acentua-o mais do que a vastidão ilimitada de terra
ou de água. Nem mesmo, a música de excelentes bandas conseguiam
dissipar a minha melancolia. A vadiagem dos pensamentos teimava em transportar-me
às lembranças da minha adolescência: o poço
perto da ponte coberta, onde nadávamos e outros lugares adoráveis;
meus companheiros; minhas montanhas!... Alguns locais dos parques de Chicago
assemelhavam-se aos do meu vale mas eram freqüentados por tanta gente,
que não me ofereciam nenhuma tranqüilidade. Nalguns domingos
eu procurava afastar-me da cidade mas nem assim conseguia alcançar
o sossego espiritual que desejava. Passeios de barco no lago Michigan,
demorados que fossem, só me satisfaziam temporariamente, pois que
havia, também, muita gente desconhecida navegando. Fazia minhas
refeições em restaurantes alemães, escandinavos, italianos,
gregos e húngaros. Fazia algumas relações mas não
amizades. As praias de Chicago fervilhavam de banhistas e turistas e eram
lugar de recreação satisfatória para centenas de milhares
de pessoas que trabalhavam na cidade. Merecem toda a consideração
as pessoas que dão a sua capacidade de esforço para a instalação
e conservação dos parques, locais gratuitos de recreação
do povo. Por toda a parte, muita gente mas nenhum conhecido entre ela.
Faltava me o essencial: a presença de amigos. Emerson afirmava:
"Quem tem mil amigos não pode perder nem um". Mesmo na aldeia onde
vivi e cresci eu não tive a ventura de ter mil mas, também
não tive só um.
A melhoria nas atividades humanas só vem pelo trabalho. O homem
que visualize uma necessidade qualquer através da própria
vivência, terá que assumi-la, ele próprio e ninguém
mais. Eu senti a profundeza da solidão, como jamais a teria sentido
sem a formação espiritual que me fora proporcionada. Talvez
isso encerre uma parcela da fatalidade cósmica. Da minha parte,
estou absolutamente certo de que o homem deve ter, através da vida,
a companhia de outros: o homem é um ser gregário.
Veio-me persistente pensamento: estava vivendo a mesma inquietude de milhares
de outros seres que vieram para a cidade grande. Eu sabia que muitos outros
jovens haviam deixado o meio rural ou as pequenas comunidades, para tentar
a vida ali em Chicago. Alguns deles eu conhecia. Por quê não
reuni-los? Se eles estivessem se sentindo sós, como eu, seria fácil
e proveitoso para todos.
Uma noite fui visitar um amigo que morava num bairro. Após o jantar
saímos a passear pelas vizinhanças e ele saudava, nominando,
muitos negociantes nas suas lojas. Isso fez-me lembrar da minha aldeia.
Essa lembrança sugeriu-me a indagação subjetiva do
porque não haver, em Chicago, um agrupamento amigável, composto
de um homem de cada profissão, sem restrições políticas
ou religiosas dispostos à tolerância às opiniões
alheias. Em tal Associação poderia haver plena colaboração
mútua...
Não agi de imediato, ao impulso da idéia. Passaram-se meses.
Anos, até. Nos grandes acontecimentos da vida é recomendável,
ao homem de fé, que fique só, por algum tempo. Pensei maduramente
no assunto e, em fevereiro de 1905, convidei três jovens homens de
negócios e explanei-lhes a minha idéia de cooperação
mútua e amizade informal, tal como conhecíamos nas nossas
aldeias de origem. Eles aceitaram-na.
Silvester Schiele, meu amigo mais íntimo em Chicago, um daqueles
três e o nosso primeiro presidente, foi, deles, o que permaneceu
na instituição. Gustavus Loher e Hiram Shorey, os outros
dois, abandonaram-na logo após. No entanto, muitos outros aderiram,
de princípio, e aumentaram o quadro de sócios, com entusiasmo
e determinação, o que ajudou muito o desenvolvimento do projeto.
Entre eles cite-se Harry Rugles e Charley Newton.
Crescemos em número, em amizade, em espírito de mútuo
apoio e dedicação à comunidade. O banqueiro e o padeiro,
o sacerdote e o funileiro, o advogado e o tintureiro conscientizaram-se
dos problemas, das ambições, dos recursos e frustrações
uns dos outros. Compreendemos que todos tínhamos, em comum, muitas
aspirações e condições. Descobrimos o prazer
de podermo-nos apoiar uns nos outros. A mim pareceu-me que voltara o tempo
que vivi em Nova Inglaterra.
A terceira reunião do grupo apresentei sugestões de resoluções
a tomar. Entre elas a denominação da entidade e o nome, que
foi aprovado, Rotary, em virtude de estarmos nos reunindo, em rodízio,
nos lugares de trabalho de cada membro. Mais tarde passamos a nos reunir,
ainda rotativamente, em vários hotéis e restaurantes. Assim
nos mantivemos "rotarianos".
Nos primeiros dois anos de existência do Rotary Club de Chicago não
tomei parte da sua administração mas indicava os diretores,
e a minha orientação administrativa era sempre acatada. Posso
ser acusado de haver exercido o poder ditatorialmente. Mas isso foi pela
devoção com que eu via a idéia desenvolver-se em realidade.
No terceiro ano fui eleito presidente e a minha plataforma constou de,
primeiro, expandir o quadro social do clube de Chicago; segundo, estender
o movimento a outras cidades; terceiro, intensificar a ação
do clube em favor da comunidade, como um dos seus propósitos.
Foi a gênese do movimento. O Rotary, partindo daquele humílimo
movimento, cresceu e, hoje, conta com mais de 1/4 de milhão de homens
de negócios e profissionais. Rotary já existe em mais de
70 países. Pode-se dizer que o sol nunca se esconde do Rotary.
O bem que o Rotary me trouxe não pode ser descrito. Ter amigos disseminados
pelo mundo é uma benção inefável. E mais ainda,
ter consciência de que esses meus amigos são todos amigos
entre si, que grandiosa doação divina! A saudação
cordial que ilumina a minha alma e me leva, pelas asas da saudade à
minha meninice: "Bom dia, Paul"! E essa, eu a recebo, qual uma música
maravilhosa, de todos os meus companheiros, por onde quer que eu vá.
Para o pequeno grupo, oriundo de pequenas comunidades, o Rotary foi um
como que oásis no deserto do sentimento, que era, Chicago. Suas
reuniões eram diferentes das de outros clubes, naqueles dias. Eram
mais íntimas, mas calorosas, muito mais amigáveis. Deixávamos,
à porta de entrada, as nossas preocupações e idiossincrasias
e, durante a reunião, voltávamos a ser as criaturas que fôramos
em nossas origens. Eu esperava a hora da reunião com enorme impaciência!
O conceito original de Rotary expandiu-se. Seus ideais se definiram; seu
objetivo se fixou mas o companheirismo do início permaneceu como
elemento de sustentação da sua estrutura. Lembra-me Henry
Bradoon:
"Rotary faz com que o homem se aperfeiçoe, preservando dentro de
si, o menino. Repousando nas dobras da personalidade de cada homem, há
o menino que ele foi. A criaturinha imaculada, sem malícia, despreocupada,
tolerante, ativa, plena de entusiasmo e ávida por amizade e relacionamento
caloroso. Infeliz do homem que sinta morrer o menino que vive no seu coração!
Enquanto o homem mantiver o espírito alevantado, terá
seu coração aberto às realizações de
otimismo e não será um velho. O Rotary estimula a influenciá-lo
a conservar vivo o menino que existe nele".
Muitos dos primeiros rotarianos cresceram no meio rural e a maioria deles
é oriunda de pequenas cidades. Embora ainda não totalmente
realizados, estarão em caminho de tornarem-se vencedores em futuro
à vista. Alguns tiveram o privilégio de tornarem-se profissionais
liberais, os demais - a maior parte - não.
Eles se solidarizavam entre si. Ajudavam-se a progredir, materialmente
e de outras formas. Alguns progrediam mais que os outros mas todos cultivavam
as benesses da amizade.
A medida que crescia o quadro social do Clube de Chicago, íamos
completando o corte transversal das profissões ali exercidas e os
sócios selecionados sentiam-se honrados com a representação
que se lhes dava. Com isso estimulavam-se na assunção das
responsabilidades que ela lhes atribuía.
É propósito do Rotary não levar em conta a
religião, a posição social, o pensamento político
ou a raça dos seus associados. É isto, sim, seu propósito,
aglutinar homens de negócio e profissionais a fim de que possam
corresponder-se, aumentar entre eles a boa vontade e tolerância e
favorecer o estabelecimento de laços de amizade e disposição
para a solidariedade.
Em janeiro de 1908, dois novos sócios vieram-se somar aos cem já
existentes; Arthur Frederick Sheldon e Chesley R. Perry, ambos predestinados
a exercer preponderante influência na instituição.
Estes homens já se conheciam, pois, alguns anos antes, Sheldon,
gerente de uma livraria, entrou na biblioteca pública onde Chesley
trabalhava e vendeu-lhe uma coleção de história. Logo
após Sheldon fundou uma escola de instrução de vendas,
baseado na idéia que, em cada transação, o desejável
é que ambas as partes fiquem satisfeitas. Sheldon era elemento valioso
para o nosso clube, já que era um professor de vendas. Encontram-se
alunos de Sheldon em qualquer região do mundo de língua inglesa.
Quem escreve este livro teve oportunidade de encontrar muitos desses alunos
entre os rotarianos, no mundo rotário,
Sheldon foi o indicado pela comissão de Edimburgo, em 1921, como
o mais capacitado para interpretar, para os rotarianos ingleses, o ideal
de serviço, como era concebido pelos americanos. Aceitou a indicação.
E a opinião unânime, dos que o ouviram, foi a de que assistiram
a um inspirado.
É aceitável que o Rotary pudesse ter nascido sob céus
mais iluminados, em clima mais ameno e numa cidade mais tranqüila
e equilibrada. No entretanto, a maioria dos que o indagam afirma, que a
fervilhante Chicago, onde, 50 anos antes se lutava tão ardentemente
pela honestidade, foi o local ideal para o surgimento da instituição.
Chicago estava emergindo da turbulência anárquica, pelas forças
da honradez. Ao final do século XIX e na la. década do século
XX, instalou-se a extraordinária "Exposição de Colúmbia",
criou-se uma grande universidade, uma biblioteca pública notável,
fundou-se a Associação Comercial, erigiram-se museus magníficos,
nasceram uma orquestra sinfônica e várias associações
de aperfeiçoamento cívico; a famosa "Hull House de Jane Adams",
outras instituições e Rotary.
Não poderia haver época mais oportuna para o surgimento de
um movimento como o Rotary, do que o início do século XX,
nem local mais apropriado, para fazê-lo crescer, do que a criativa,
exuberante e paradoxal Chicago.
O clima de insegurança reinante em Chicago, naquela época,
prevalecia em outras regiões do país. De maneira generalizada,
os negócios iam mal: a ética comercial agredida, em desfavor
dos consumidores, dos empregados e competidores. O espírito de comunidade
estava praticamente esquecido. Era necessário mudar para melhor.
Mais, até, que necessário: tinha que mudar!
Rotary nasceu na incomparável metrópole do médio oeste,
onde se debatiam, vertiginosamente, princípios religiosos extremados,
paixões políticas em verdadeiro fanatismo, discriminações
raciais intransigentes e encarniçada luta econômica, que,
somando-se, emergiam numa aparente homogeneidade. Ainda hoje (1946/47),
o caldeirão fervilha furiosamente e cidadãos devotados lutam
para introduzir, na confusão dos elementos, princípios de
fé e patriotismo para que o produto se torne mais digerível.
Em 1905 na cidade à beira do lago, Rotary foi um quadro no drama
em cena. Os atores daquele quadro foram homens comuns; profissionais e
negociantes. Apesar das suas deficiências prováveis, em comparação
com os seus colegas, pode-se, dizer, como consenso geral que eram os de
melhor qualidade.