CAPÍTULO XXXVI

0 Rotary Serve em duas Guerras

            Depois da Convenção de Chicago, em 1910, o progresso foi ininterrupto. Dentro de um ano havia 28 R.C. nos USA. A fusão das forças dos diversos clubes numa unidade nacional encorajou as aspirações para alargá-la, internacionalmente, a mais alguns países mas não a todos.
            No ano próximo, quando Winnipeg e Londres associaram-se, os membros da associação já eram 50.
Em 1913 um tornado varreu o Estado de Nebraska e houve inundações em Ohio e Indiana. Os R.C. daqueles Estados, auxiliados pelos demais dos USA, entraram em ação, socorrendo e alimentando gente e animais e colaborando nos trabalhos de reconstrução. Foi então, que o Rotary revelou a sua grande vocação como organização de serviço.
            Veio, logo depois, a primeira Grande Guerra e os R.C. da Inglaterra e do Canadá provaram o seu valor. Quando os EUA e Cuba entraram na guerra, os seus R.C. também se mostraram tão valorosos quanto os dos outros dois países. O propósito maior do Rotary é servir. Jamais houve oportunidade mais própria para o serviço do que aquela época. Rotary provou ser um dos maiores colaboradores de Tio Sam. Nasceu no nosso país de liberdade. Jamais poderia originar-se em meio ao despotismo. Alguns sócios mais agitados quiseram suspender as nossas reuniões normais, porém venceram os mais moderados. E as reuniões de Rotary exerceram um papel de grande influência na manutenção da tranqüilidade e elevação moral.
            Na época da Grande Guerra as Convenções do Rotary realizadas em 1917 e 1918, como é fácil compreender face à conjuntura da civilização nessa época, se dedicaram ao estudo de assuntos relacionados com a guerra.
            Os rotarianos atuaram, com excepcional dedicação, nas campanhas de vendas de bônus, no aproveitamento das terras devolutas para plantio de alimentos, na instalação de bibliotecas nos campos de treinamento, na criação de centros de lazer e de congraçamento nas imediações desses centros. Dedicaram-se à obtenção de roupas, remédios, etc. para os europeus em sofrimento de guerra.
            Logo em seguida à declaração de guerra pelos EUA os 300 R.C., então existentes no país, formaram uma comissão que foi a Washington para oferecer cooperação. Tomaram a si a tarefa, patriótica e humana, de fazer com que a juventude convocada fosse recebida, em todos os lugares onde acampassem, como verdadeiros heróis e não como bucha de canhão.
            Quando a Primeira Grande Guerra terminou as altas autoridades governamentais proclamaram o Rotary como a mais eficiente entre as organizações que se propuseram colaborar.
            Durante os anos de Guerra as minhas ambições de extensão do movimento a outros países foram suspensas mas o número de R.C. nos EUA, no Canadá, na Grã-Bretanha e Irlanda e em Cuba continuou a crescer. Em 1919 tínhamos 500 clubes nos EUA, 24 na Grã-Bretanha e Irlanda, 23 no Canadá e tínhamos um clube na China e um nas Filipinas. E dentro de mais um ou dois anos os tínhamos no Uruguai, na Argentina, no Panamá, na Índia, na Espanha, no Japão, na França, na Austrália, na Nova Zelândia, na África do Sul, no Brasil e no Peru.
            Quando, afinal, a pomba da paz voltou extenuada, a pousar sobre o mundo, Rotary retomou os seus rumos. A guerra nos ensinara a importância de muitas coisas não percebidas: que a liberdade é o mais precioso bem, superior a qualquer valor, superior a qualquer preço. Rotary tomava lugar entre as instituições respeitáveis, cuja importância não aceita avaliação material. A inspiração é chama que necessita, para manter-se acesa, de serviço constante. E havia muito que fazer no período de reconstrução.
            Em 1921 os rotarianos dos EUA lotaram dois navios com destino à sua primeira convenção além-mar, que se realizou na cidade de Edimburgo, berço de cultura, religiosidade e educação. Após a convenção o Rotary tomou vulto em todo o continente europeu, como também, na América do Sul. As miragens do mundo passaram à realidade. Abriu-se a mentalidade, incendiaram-se o sentimento e a concepção de tolerância entre as nações e de amizade entre os homens.
            A grande maioria dos erros da história tem-se originado da visão falha dos estadistas e dos diplomatas, em não se aperceberem que as influências psicológicas dos interesses nacionais são a somatória dos interesses pessoais.
            Na década seguinte, o mundo todo foi abalado por forte recessão que atingiu muitos países, inclusive os EUA. Parecia que os homens haviam perdido a autoconfiança. A bolsa de valores explodiu em baixa, fábricas encerraram suas atividades, grassou o desemprego. Muitas organizações nos EUA viram-se esvaziadas de sócios. Mas o Rotary permaneceu surpreendentemente com pouquíssimas perdas. Os R.C. através de todo o mundo, demonstram-se valorosos centros irradiadores de fortaleza moral. Suas reuniões foram sempre centros de solidariedade, onde homens preocupados se encorajam mutuamente.
            E... outra vez ameaça de Guerra. Novamente o mundo estremeceu. Os serviços prestados pelos R.C. de 1939 a 1945 são excessivamente numerosos para serem aqui registrados. A guerra obrigou a suspensão aparente de alguns R.C. Tão logo foi possível, eles passaram a reunir-se. Nos países, cujos territórios ficaram fora do teatro da guerra, os R.C. continuaram em plena atividade, atendendo, prontamente, ao chamamento dos seus governantes e às necessidades dos compatriotas. Estiveram sempre receptivos e colaboradores com as tropas aliadas, em treinamento nos seus países, e aos refugiados que neles procuravam asilo.
            Os membros dos 500 R.C. da Grã-Bretanha deixaram de reunir-se regularmente, durante as devastações pelos raides aéreos e chegaram a perder alguns sócios. Alguns R.C. voltaram, depois, muito mais fortes. Os rotarianos ingleses sentiam que, se o Rotary era benefício em tempo de paz, seria integralmente necessário na Guerra. Tornaram-se, pois, mais unidos, mais humanos, compreensivos e bondosos. Mesmo durante os bombardeios, continuaram a reunir-se.
            Os rotarianos da França nunca deixaram de se reunir a não ser quando forçados a isso pelos invasores da sua Pátria. Charles Jourdan Gassin, nosso hospedeiro em 1937 durante a Convenção de Nice, continuou exercendo a governadoria do Distrito durante toda a guerra. Em vários países os rotarianos, determinados a manter o companheirismo, continuaram a reunir-se secretamente, mesmo sob a possibilidade das punições impostas pelo invasor.
            Há uma infinidade de comoventes acontecimentos a serem relembrados por Rotary no transcurso da guerra. Um rotariano polonês, que fora Diretor do R.I., atravessou duas milhas sob intenso bombardeio, em Varsóvia, para chegar à embaixada americana, tão somente para transmitir a sua última saudação aos companheiros da Secretaria Central, em Chicago. Os rotarianos dinamarqueses, estimulados pelo seu rei, continuaram a reunir-se durante a ocupação nazista.
        O R.C. de Manila passou a reunir-se em Bataan, após a ocupação da sua cidade e Carlos Rômulo fugiu para os EUA para relatá-lo. Na China, o R.C. de Chungking continuou a reunir-se, todas as semanas, apesar do constante e poderoso bombardeio. Em Calcutá realizou-se uma Conferência Distrital sob bombardeio e temerosa expectativa de que os invasores chegassem.
            Rotarianos alemães, italianos e japoneses acharam-se na impossibilidade de continuar as reuniões, quando seus governos estavam em plena guerra ou em preparação para entrar nela, mas está fora de dúvida a persistência do espírito de Rotary, entre a maioria deles, o que se passou, também, com rotarianos de outros países, que foram forçados a cancelar as reuniões.
            A guerra exerceu um efeito estimulante para a extensão do movimento, nos países não atingidos por ela. As perdas causadas ao Rotary, pela guerra, foram compensadas por ganhos nos paises não atingidos.
            Nos EUA havia amplo campo para expansão. No entretanto, a tarefa de manter a expansão passou dos rotarianos americanos para os canadenses, mexicanos, neo-zelandeses, australianos, cubanos e sul-americanos. Não há quem duvide do ressurgimento da Instituição ao término da guerra na Europa. Já se realizam conferências distritais na Suécia, na Dinamarca, na Finlândia, na Suiça e, em outros países os rotarianos só estão a espera da sua vez. Rotary não poderá ser reprimido a força.
            As amizades que fiz na Alemanha, na Estônia, na Finlândia, Noruega, China e Japão podem estar caladas pelo temor da guerra mas a semente do seu espírito permanece viva. A reconstrução do Rotary, através da Europa, está sendo bem planejada e surgirão muitos clubes em nações distantes.
            Nem uma outra organização privada recebeu mais atenção de governos do que o Rotary, através dos seus dirigentes e dos seus R.Cs. membros. Conferências e Convenções, realizadas na Europa e na Ásia têm recebido privilégios especiais. Têm sido abertas por reis e outros chefes de Governo. Edições especiais de selos postais têm sido autorizadas. Os presidentes do R.I., nas suas habituais visitas, são sempre regiamente recebidos em audiências especiais, pelos Chefes de Governos dos países visitados.
            Alguns amigos pedem-me que eu mencione as honrarias que me têm sido conferidas. E eu o farei somente porque é óbvio que essas autoridades procuraram testemunhar o seu apreço ao valor do movimento rotário. As comendas foram aceitas por mim, como honras conferidas a Rotary. São: Doutor em Leis (Universidade de Vermont) ; prêmio "Silver Buffalo" (escoteiros da América); Ordem do Cruzeiro do Sul  (Governo brasileiro); Ordem do Mérito (Chile); Ordem do Mérito (Equador); Ordem de Cristóvão Colombo (República Dominicana); Membro da Legião de Honra (França); Ordem do Sol (Peru) ; Doutor Honoris Causa(Peru) . Condecorações similares têm sido conferidas por vários países a Presidentes e outros dirigentes do R.I.
            Durante o período da guerra os R.C., não somente se reuniram e serviram seus países e a Humanidade, aceitando o desafio que a guerra lhes fazia, mas continuaram tentando crescer porque estavam conscientes de que, terminada a guerra, voltaríamos a atuar livremente. Enquanto esperavam por isto, os rotarianos planejavam projetos para o após guerra, pois a primeira guerra já ensinara que a emotividade não leva a nada.   Longe, pois, da emotividade, agora deveríamos tomar uma determinação mais séria. Teremos que criar uma organização mas bem estruturada e mais eficiente que a Liga das Nações. Organização que encerre menos interesses de partes, que ofereça mais oportunidades de compreensão e de fraternidade entre as Nações.
            Assim, por muitos anos o Rotary International manteve uma comissão encarregada de planejar o pós-guerra, levando em conta os problemas que separam os homens e as aspirações comuns que os unem, as que devem ser aceitas por todos os países como direitas e como deveres dos seus cidadãos. Essa tarefa tem sido executada a contento, tanto que é entre os rotarianos que estão os homens mais bem preparados a contribuir no que deve ser feito pela humanidade, para preservar a paz, afastando a guerra.
            Durante os últimos 10 anos centenas de R.C. nos EUA têm patrocinado um par de milhares de institutos de compreensão internacional, trazendo às suas comunidades centenas de oradores dos EUA e outros países, para dialogar, perante auditórios de 200 a 1.000 pessoas, sobre assuntos de interesse internacional. Cerca de 1.500.000 pessoas já assistiram a esses institutos. Um desempenho magnífico para educação de adultos! Além disso, esses oradores têm-se dirigido, em conferência, a cerca de 3.500.000 alunos secundários.
            Conseqüentemente não foi surpresa que o Departamento de Estado dos EUA tenha convidado o R.I. para comparecer, com representantes conselheiros, à Conferência das Nações Unidas em São Francisco, em maio de 1945. Onze rotarianos serviram, cada qual com as suas capacidades específicas.
            Pelo que ficou registrado, a contribuição oferecida por eles foi muito preciosa. Essa foi a opinião dos técnicos oficiais responsáveis pelo conteúdo da carta. Edward Stetinius Jor então secretário de Estado dos EUA, escreveu: "O convite ao Rotary International para participar da Conferência das Nações Unidas, como conselheiro da delegação dos EUA, não foi um mero gesto de acatamento e dignificação à grande organização.   Foi, isto sim, o reconhecimento da participação eficiente que os membros do Rotary ofereceram e continuam a oferecer para o desenvolvimento da compreensão entre as Nações. A representação do Rotary foi necessária em São Francisco. Como é sabido, ela deu contribuição na elaboração da carta e, particularmente, no conteúdo das provisões do Conselho Econômico e Social".
            Acrescente-se, ainda, que havia rotarianos entre os delegados das nações e, portanto, atuando ativamente na Conferência. Thomas Warren de Wolverhampton, Inglaterra, presidente do R.I., no ano em que escrevo estas notas, diz:
            "O fato de 7 presidentes das delegações nacionais à Conferência de São Francisco e muitos membros dessas delegações terem sido rotarianos, é prova de que o mundo se beneficia dos nossos propósitos e ações". Acrescenta ainda: "O trabalho de vulto que o Rotary faz em favor da compreensão internacional, levando mensagens de boa vontade a milhões de estudantes secundários, a outros cidadãos, através de escritos de programas de rádio, de discursos, de discussões em grupo, etc. tem efeito positivo na opinião pública".
            Tal apreciação, vinda de um educador de indiscutível prestígio na Grã Bretanha é, sem dúvida, profundamente confortante para os rotarianos do mundo.
            O presidente Tom crê que a educação, por si só, poderia solver as dificuldades que surgem entre os países. Ele sustenta que, por mais capacitados e bem intencionados que sejam os líderes das nações, os seus esforços são anulados pela defeituosa formação emocional dos seus concidadãos, no sentido de evitarem-se as guerras. Assim a solução estaria em elevarem-se os níveis de educação de todos os povos.
            Certa vez Roger Babson pedia ao extraordinário matemático Charles Steinmetz, considerado o mais destacado engenheiro eletricista do mundo, que opinasse sobre a mais efetiva linha de pesquisas dentro da sua especialidade - rádio, aeronáutica, energia - que poderia oferecer maiores contribuições à humanidade. A resposta foi que as mais douradas esperanças da humanidade residiam nas forças espirituais do homem. Essas é que são a base de todas as demais.
            Fez, depois, sua declaração de fé: "dia virá em que os homens se convencerão da inferioridade das coisas materiais em face das espirituais e, então, o mundo avançará mais, no tempo de uma geração, do que em mais de quatro dentro do atual conceito". Por extravagante que possam querer julgar tal afirmativa, contradiga-se que Steinmetz fazia da exatidão dos seus conceitos a maior característica da sua personalidade.     As forças espirituais, sem dúvida, terão poder suficiente para evitar as guerras. Quais outras poderiam equiparar-se a elas, em poder, pela postura moral e racional?
            "Dar de si antes de pensar em si", o lema do Rotary, encerra o maior entre os maiores conceitos espirituais e humanos. Quem dirá que é inatingível?