CAPITULO XL

Descansando e Visitando

            Ninguém descreveu melhor do que David Grayson em seus livros "Friendly Road" e "Adventures in Contentment", a bênção que significa a vida no campo, quando a saúde física ou o cansaço mental nos aflige. É a minha opinião, porque já sofri o afastamento forçado do trabalho e o descanso obrigatório no campo. Jamais esquecerei que renasci da mãe natureza que me tomou nos braços, quando caí doente, mesmo amparado pela minha doce Jean.
            Num dia, que nunca esquecerei, eu acabara de fazer uma palestra e me achava, ainda, em pé na tribuna, quando sofri um desmaio. Só me lembro de haver caído sobre o peitoril da tribuna e de haverem muitos corrido para amparar-me. Ataque cardíaco, dizem. O médico o diagnosticou e sentenciou que eu devia acertar minhas contas com a natureza.
            Sonhei ansiosamente ir para o campo tão logo deixasse o hospital. Levaram-me ao Norte de Michigan, para o meio das colinas, dos lagos, dos riachos murmurantes, do canto dos pássaros e das folhas multicoloridas. É uma longa história eivada de altos e baixos, de avanços e recuos, de médicos e enfermeiras. Foram necessários 18 meses para que eu emergisse do negro e fundo buraco em que caíra. Mas, nesse período, descansei muito e recuperei-me. Seguiram-se 10 anos de atividade. Eu aprendera a descansar.
            Regressei ao campo três vezes mais e voltei, sempre, recuperado. Foram aqueles períodos de repouso que me deram os dez anos de atividade. Setenta e cinco por cento dos meus colegas de turma, na Universidade de Iowa, já se passaram para o reino dos mortos. Dos vinte e cinco por cento restantes, provavelmente nenhum deles começou a vida com menos saúde e fortaleza física que eu e, provavelmente, nenhum tenha tido de suportar percalços de saúde. Na verdade só tenho que agradecer ao campo por ainda aqui estar.
            "Afrouxe as cordas da sua rebeca, senhor homem da cidade. Quando estourar a corda prima, ou outra qualquer, ninguém poderá manter o concerto até o fim". (Sr. Crawford Mc Crellongh)
            "A mais elevada e mais útil característica de um povo, é, sem dúvida, a tendência de cultivar e amar o solo dos seus campos. A cidade desgasta, rápido, o homem e afrouxa os laços de família. O homem torna-se sofisticado e débil. A corrente autêntica de humanismo sempre vem do campo para a cidade. Por seu turno, parte da cidade para o campo outra corrente, porém de humanismo muito anêmico. Como o sangue arterial do campo para a cidade, venoso no sentido contrário. Uma nação sempre começa a apodrecer nas cidades e acabaria podre, não fosse o sangue bom e fresco que flui do campo para os centros de população". (John Burroughs)
            "Um homem branco, ao banho com um Taitiano é como uma planta branca, cultivada pelo jardineiro, comparada com uma linda e simples florzinha verde-escuro das montanhas".(Darwin)
            Vivi grande parte da minha vida numa grande cidade, onde exercia minha profissão. Reconheço o papel das grandes cidades na civilização, e, claro, amo o povo da cidade com quem convivi e em cuja companhia trabalhei. Homens fortes, corajosos, vão, aos poucos, vencendo os desajustados e as nossas grandes cidades vão se tornando mais seguras. O crime e a corrupção das grandes cidades americanas são longamente explorados pela publicidade, e o povo tem a impressão que a maioria dos habitantes vai se tornando indiferente. Mas não é assim. A grande maioria é de cidadãos educados e disciplinados. A cultura, a educação e as artes crescem por todos os lados e surgem, como se fossem sonho, as escolas, as bibliotecas, as igrejas, as universidades, os parques e os jardins públicos.
            Eu, certamente, não aconselharia a ninguém fugir da cidade e viver no campo, apenas para fugir de responsabilidades. Na cidade, vadiam, sem responsabilidade, os maus elementos por ser mais difícil à lei, encontrá-los.
            Há tempo para trabalhar e tempo para descansar e cada um de nós decide o que melhor há a fazer. Espalhada, eu penso que a população viveria melhor. Para qualquer observador sem preconceitos pode parecer uma condição anômala que a população exista dispersa em algumas regiões e tão densamente concentrada em outras. Esse observador quereria reformar o mundo, por certo.
            Se fosse intenção do Criador que o homem vivesse assim massificado, por quê teria Ele criado um mundo tão extenso, com montanhas e vales, onde o ar e a água são puros?
            Os homens se concentram nas cidades, como sardinha em lata, e quando não encontram o que mais comer, uns devoram os outros.
            O campo tem sido o meu refúgio, sempre. Quando não vou por vadiagem, faço-o por necessidade da minha vida. A carga dos anos alivia meus ombros, no campo.
            Por alguns anos, passei fins de semanas, indefectivelmente nas imprevisíveis e misteriosas dunas que margeiam o lago Michigan, no noroeste do Estado de Indiana. As dunas atraem e prendem, com poder extraordinário. Os que a elas se aficcionam, constroem abrigos entre as colinas errantes de areia e lá se instalam, para gozar a suavidade maravilhosa do grande lago.
            As tempestades mudam constantemente o contorno do lago, ora cobrindo a terra, ora adentrando-a nas águas. A fauna e a flora das dunas de Chicago são muito mais variadas do que as da zona central-oeste. Os fins de semana, em companhia de outros amantes da natureza, são um excelente estímulo para as atribulações com os negócios, na semana seguinte. Não compreendo como os homens se permitem conservar-se encarcerados em casa, durante o inverno, sem aspirar ar fresco e sem ouvir o canto de um passarinho!
            O clube de Campo de Chicago (Prairie Club of Chicago), do qual sou sócio, foi fundado há 35 anos com a finalidade de estimular os jovens ao sadio esporte das longas caminhadas pelas zonas rurais. Temos aproximadamente 2000 sócios, residentes na cidade, oriundos da zona rural! O clube de campo dá-lhes oportunidades de matar saudades do seu antigo ambiente e, sob muitos aspectos, é só com ele que se conta para esse fim.
            Sábados, à tarde, os passeios a pé são a diversão principal que o Clube de Campo promove, com a organização de acampamentos e outras atividades saudáveis, disponíveis para legiões de professores, empregados de escritórios, estenógrafos, etc. Essas promoções são anunciadas nos jornais de Chicago, incentivando interessados a participarem, sem nenhuma despesa além da de transporte. O trajeto desses passeios, como o seu decurso, são planejados cuidadosamente por gente experimentada e conscienciosa.
            O Clube de Campo  tem convênio com o "Rocky Mountain Club", de Denver; com o "Sierra Mountain Club" de São Francisco; com o "Mountaineers Club" de Seattle; com o "Nature Lovers Club" de Indianapolis e com outros muitos, dedicados às diversões campestres.
            Há em Chicago um jovem, que veio de Boston e que canta loas ao Prairie Club. Chama-se Alexander Wilson e seu nome é quase desconhecido.
            Não há restrições de idade para os participantes das promoções do clube. O mais jovem foi uma menina robusta de três anos, a qual só necessitava ser ajudada para passar por cima das cercas. Ela saracoteava, sem reclamar, vencendo a distância de 16 km. Agora, já é mãe de uma criança vigorosa.
            O mais velho participante era o Capitão Robinson, 90 anos, que, com sua câmara indefectível, fotografava todas as flores raras que encontrávamos, classificava-as e descrevia para uma revista.
Os naturalistas têm olhos para ver as belezas existentes nos buracos e nos barrancos, nariz para cheirar o odor dos pinus e dos bálsamos, e ouvidos para escutar a canção doce dos passarinhos, das cotovias do prado e aquele contralto divino que é o tordo ermitão.
            Muitos dos conhecedores das bênçãos da vida rural sonham com a aquisição de uma propriedade satisfatória às suas tendências e gostos. Muitos o conseguem, outros mudam os seus sonhos para estadas periódicas nos subúrbios e outros, que ali se instalam, morrem, sem poder gozá-la.
            Nossa casa está localizada numa quadra grande de um subúrbio rico e nós a estamos gozando há 30 anos benditos. Quando viemos para aqui, o local era deserto.
            Hoje o local tem 26 famílias residentes, em casas próprias. Quando vieram para aqui viviam, contentes, maridos, mulheres e filhos. Hoje muitas das casas estão ocupadas por viúvas dos homens que as construíram e, numa delas, mora um viúvo. A porcentagem de 10x1 em favor das viúvas, é o resultado lamentável da dura competição, que o homem chama de sucesso. Ela é quase tão devastadora quanto à guerra, para a qual os filhos e netos dos meus vizinhos estão partindo, em quaisquer dos frontes.
            Os "homens de sucesso” vêm ao nosso subúrbio, a procura de descanso e quanto a isto, conseguem. Mas acabam descansando, em definitivo, debaixo da terra.
            É uma trabalheira a mudança para um subúrbio, mas maior desafio será o aposentar-se! Quão fácil é falar de aposentadoria! Utopia! Nada a fazer, além de descansar e de gozar a sensação de ter nada para incomodar-se! Quão diferente disso será, na realidade! Será, quase, uma doença! Poucos se adaptam a ela. Sair do fogo das obrigações, na velhice, é uma empreitada muito mais séria do que o assumi-las na mocidade. Há, no entanto, uma providência que, tomada, propicia suportá-la. É descobrir um novo e absorvente interesse. No campo, esse novo atrativo é, freqüentemente, encontrado.
            Para o homem jovem e vigoroso, uma fuga emocional da realidade da vida não é coisa que atraia muito. Mas a vida no campo não é, necessariamente, uma fuga das realidades. Ao contrário, é, muitas e muitas vezes, a porta de grandes oportunidades de o cidadão realizar-se, como participe da comunidade, sob condições muito mais favoráveis. O jovem vigoroso pode, facilmente, transferir a época do repouso.
            "A vida campestre, à sombra das árvores das fraldas das colinas, na solidão em que cantam as águas, é dádiva de Deus". (John Masefield)
            "Que possa eu possuir uma casa pequenina em meio a um grande jardim, alguns amigos verdadeiros e muitos bons livros!"  (Cowley)
            "Louvado seja o que habita o campo
            Longe das preocupações aflitivas e das discussões vazias
            Quem pode estudar em paz longe das irritações inúteis
            Quem gozou a sua juventude e, agora, a velhice. (Dryden)
            "Depois que você cansou dos negócios, da política, da sociabilidade e chega à conclusão que nada disso o satisfaz plenamente, o que resta? A natureza. Ela permanece para fazer brotar, do recesso entorpecido, as afinidades do homem ou da mulher com o ar livre, o sol, durante o dia e as estrelas no céu, à noite".
(Walt Whitman)
            Nada é mais propicio para estabelecer as relações com pessoas qualificadas do que fazer parte do quadro social de um R.C. Mas se não houver um R.C., que seja um Kíwanis  ou um Lions Club ou outro qualquer clube de serviço.
            Espero que não tomem por presunçosa esta afirmação: não há melhor recomendação para uma comunidade do que ela abrigar um R.C. Se, por ventura, a comunidade não o abrigar, por certo a cidade vizinha o terá e não custa muito ir até lá, se a pessoa possuir um automóvel. O sócio de um R.C. é bem recebido em todos os R.C. do mundo. Muitos rotarianos não perdem oportunidades que se lhes ofereçam de visitar os R.C. nas cidades onde eles estiverem. Outros fazem questão de comparecer a reuniões das cidades vizinhas, para alargar os seus círculos de relações o quanto possível.