CAPITULO XLI

Montanhas e Povo; Lagos e  Pássaros

            Entre os que vieram de outras cidades, fixar residência no nosso vale e tornaram-se estimados por todos, ali, destaca-se o Sr. Addison Stone, um advogado de Washington, D.C. O Sr. Stone era casado com uma das mais bonitas e dignas moças de Wallingford, a sra. Lou Kent. O casal viera morar na velha fazenda dos Kent.
             Addison Stone era um cavalheiro, culto e excêntrico. Lou Kent Stone não tinha porque se queixar do marido que escolhera. Ele não adotara os hábitos do povo da região mas, aos poucos, tornou-se  ligado a todos. Nunca se o viu ir para o trabalho da fazenda vestido de macacão. Suas roupas pareciam ter sido confeccionadas por alfaiate e, às vezes, até usava luvas. No entanto, não dispensava o chapéu de abas largas, de palha, e aparentemente bem usado para proteger-se do sol, no verão. Era um fazendeiro distinto e vestia-se como tal.     Viveu a vida, que escolheu para viver e como quis viver. A maioria dos moradores respeitáveis da cidade era congressionista. Stone não era e jamais fingiu sê-lo. Embora sua casa estivesse situada exatamente de fronte a igreja Congressional, não me recordo havê-lo visto assistindo às reuniões ali. Vivia como entendia e o povo de Wallingford, aos poucos, o aceitou como era. Pagava suas contas em dia e cumpria. religiosamente todos os compromissos. Não era arrogante e nem procurava homenagens.
            Esse feitio era apreciado por seus concidadãos e reconhecida a firmeza do seu caráter e a capacidade de relacionar-se, eles o elegeram para moderador das reuniões da comunidade. Não poderiam  eleger moderador mais digno, mais hábil e mais capacitado.
            Não se sabia porque ele não continuava sua carreira em Washington. Sem nenhuma dúvida, preferia o regime de vida do vale ao da capital. Amava a vida campestre, pela tranqüilidade e pela conduta amena e sincera dos seus habitantes. Pela beleza das montanhas e nela placidez dos lagos.
            Não há nenhuma indicação, mesmo no cemitério, lembrando Addison e Lou Stone, mas a doação, que fizeram, de uma área de mato acompanhando a praia do lago Effin, à cidade de Wallingford, atesta a estima que lhes inspirava o vale e o seu povo. Só a lembrança desse fato justificaria um registro público de reconhecimento.
Lembro-me de muitas pessoas cultas e educadas que desfilaram pela nossa comunidade tão anonimamente que pareciam ser gente do lugar.
            Um belo exemplo de amizade que se desenvolveu entre gente de fora, que veio para o vale, e os nativos dali é a história do Dr. e Mrs. Franklin Wood, de Boston que, após haverem passado as férias de muitos verões numa aldeia do Maine, resolveram fixar residência ali, quando ele se aposentasse. Resolveram viver ali, os seus últimos anos e, pois, obter um túmulo no cemitério local, para morada eterna.
            No entanto, foram surpreendidos com a negativa de venda do terreno, no cemitério, para quem não houvesse nascido no Estado.
            Não demonstraram desapontamento e continuaram morando na cidade e alargando o seu circulo de amigos. Logo após foram surpreendidos por ato solene, promovido pelo Presidente do Conselho do Cemitério, adotando-os, cidadãos do Maine. O ato significava que, na impossibilidade estabelecida nos estatutos, de vender-lhes terreno no cemitério, o povo reunido lhe fazia doação de um.
            "A boa ação nunca é perdida.
            Quem semeia cortesia colhe amizade
            E o que planta bondade
            Colhe amor".
                        (Richard Brooks)
            Qualquer um que se sentir feliz num novo ambiente, terá a estima da gente do lugar. E isso é um dividendo abençoado. As montanhas estarão sempre presentes, quando você as chamar. Elas são sempre as mesmas, apesar das tempestades e do vento.
            Aprenda o nome delas e verá como parecerão mais próximas, quando você as nomina. Se tiver força e vigor escale-as, homem, e se você não for forte e vigoroso, o suficiente, cruze-a de automóvel. Há duas estradas em todas as direções! Nos meus dias era diferente.
            Selecione um "ponto de inspiração" na montanha e se fixe nele, examinando-o e sentindo-o. Penetre os segredos das montanhas. Elas os confiarão a você se você os quiser, como amigo. Vá ao seu "ponto de inspiração" para testemunhar as glórias do levantar e do pôr-do-sol. O luar e o cintilar das estrelas transfiguram as suas montanhas em vultos sobrenaturais mas fascinantes.
            "Quando o luar cai nos flancos da montanha
            Em lenta elevação para o céu,
            Cada nuvem branca em ascensão
            Parece uma alma boa que se esvai".
                             (Sam'1 Miller Hageman)
            Lençóis de neve suavizam os vértices ásperos das montanhas e arredondam-lhe as curvas. Os que amam as montanhas jamais sentir-se-ão solitários, enquanto estiverem com elas. Se são seus amigos, como poderiam sentir-se sós?
            As lagoas e lagos, constituem-se em legião mas cada um deles possui sua própria individualidade. A maioria deles está nas dobras das montanhas e parece fazer parte delas. Parece que as refresca nos dias quentes de verão. Dispa-se e mergulhe neles se isso lhe apraz. Você sentir-se-á acariciado e revigorado e terá uma estranha sensação de prazer por estar vivo.
            Fazendo-se amigo das montanhas, das lagoas e dos lagos, você não poderá deixar de ouvir a voz doce e revigorante dos passarinhos. Eles, também passam a ser seus amigos e a demonstrá-lo, permitindo que você se aproxime. Há, nas montanhas, uma grande variedade deles. Alguns de arribação e outros integrados com elas. Algumas migalhas colocadas na soleira da janela atrairão os passarinhos, mesmo nos dias em que a temperatura baixar de zero. Alimentar os passarinhos nas estações frias alegra o ambiente das montanhas e dos lares. Faça-o como prática diária espalhando sementes com generosidade. Você será recompensado por agradecimentos às centenas, em forma de prazer pela audição de maravilhosos concertos, oferecidos pelos seus amigos alados. Inicie seu dia, Sr. cidadão, em companhia dos seus passarinhos.
            Alguns passarinhos afeiçoam-se tanto aos seus amigos humanos, que se instalam como hóspedes, desde que encontrem um escaninho na casa, para edificar os seus ninhos e criar a família.
            Amigo leitor dê uma chance à "Jenie Wren" e ela virá a você, como também o tordo e as rolinhas. A codorniz responde prontamente aos gestos de amizade e  quão doce é o seu pio tímido, melancólico!
            Coelhos e esquilos também se tornam amigos, após a hibernação. A jaritataca e seus filhotes cruzarão com freqüência o seu quintal, se não forem perseguidos por gente ou pelos cães. São domesticáveis.
            As tímidas raposas põem suas cabeças fora das tocas, nas pedras ou na base dos tocos de árvores, lançam um olhar ao redor à procura do seu mais temido inimigo, o homem, e desaparecem. Não é muito raro que um veado, ou alguns, façam presença, nas montanhas e, de quando em quando, até um urso faz seus passeios rápidos pelos seus flancos, nas vizinhanças das pequenas povoações. Todas essas criaturas constituem-se em curiosidade para as pessoas da cidade.
            Quem pensar em ter uma casa no interior deve tornar precauções sérias. Em primeiro lugar estar consciente de que está preparado espiritualmente para isso. Não é o bastante achar linda a paisagem e encantar-se com as atrações cênicas da Nova Inglaterra e, de ímpeto, decidir-se. É melhor que faça repetidas visitas, permanecendo algum tempo em casas alugadas, ou mesmo tentar permanência prolongada durante um ano inteiro, antes de decidir-se morar no interior. Depois, sim, estará realmente apto.  O segundo passo é a escolha do lugar. Se há água abundante, se a topografia é favorável, se o solo oferece drenagem satisfatória e suporte fácil para alicerces de edificações; se tem boa madeira para construção. Além disso, se quiser sentir-se feliz, construa uma casa e não um castelo.
            Se faz questão de um belo panorama à vista, procure com cuidado o lugar, particularmente pelo lado sul. Isso porque, no inverno, quando for obrigado a permanecer dentro de casa, durante o dia, a vista é muito bonita.
Se um dos quartos da casa dá visão a um panorama bonito das montanhas e vales, é possível, ainda, melhorar a paisagem pintando um quadro na vidraça. Minha esposa e eu o fizemos em "Comely Bank". O quadro que pintamos é muito apreciado por todos os nossos amigos. Não menos apreciada é a pintura da janela da sala de jantar, onde fazemos as refeições, em presença dos nossos passarinhos.
            Montanhas, vales, praias, lagos, rios e pássaros tudo é belo, cada um com encantos peculiares, que nos atingem e nos aquecem os corações. Gozemo-los profunda e gulosamente.
            Ouvimos encantados o canto dos passarinhos. Assistimos ao bater de asas velozes das cotovias e os arabescos dos vôos das andorinhas, caçando os insetos no ar. Podemos nos intoxicar com o perfume das flores, na primavera, e com as emanações do feno secando, ao tempo da colheita. Mas tudo isso é apenas parte do principal: a amizade e a solidariedade da gente do interior.
            Quando termina o dia, o que é que pode ser mais repousante e gostoso do que um bate-papo tranqüilo com um vizinho que venha visitar-nos?! Falo num bate-papo e não numa conversa apressada e nervosa. Se a visita vier da cidade e trouxer os nervos excitados, relaxará, por certo, em contato com aquela gente do interior, que escolheu uma maneira a mais sábia para viver.
            O pessoal do interior, longe do bulício infernal das grandes cidades, tem mais autocontrole e não está sujeito ao contágio moral e mental, que assola os pedestres angustiados das ruas apinhadas. Não fica muito rico mas, também, nem tão pobre. Suas colheitas anuais são-lhe suficientes, porque raramente a sua ambição ultrapassa-lhes as possibilidades. Os seus negócios não obedecem à regra "ultrapassar o concorrente". Além disso, os concorrentes são poucos, entre os mais bem situados. O povo do interior vive em regime bem equilibrado e quem vier conviver com ele terá que imitá-lo.
            Uma boa filosofia de vida é melhor do que a riqueza e serve para sempre: na bonança e na adversidade. Por incrível que possa parecer, não foi entre a classe pobre da cidade que se registrou mais suicídios durante a grande depressão. A maior porcentagem foi de ricos, desprovidos de uma filosofia de vida suficientemente forte. Os professores das escolas de Chicago continuaram trabalhando, sem receber nada, durante meses. A filosofia de vida que os mantinha era a de terem, ainda, um trabalho a realizar.
            Há um dito que afirma que a gente da Nova Inglaterra se recusa fazer qualquer coisa pela primeira vez, isto é, não acredita em coisas duvidosas. De fato é assim. Exemplifico: Os habitantes da Nova Inglaterra criaram a "reunião comunitária", uma instituição suporte para o regime democrático. São acusados de não cooperativos, no entanto, os seis Estados que formam a "Nova Inglaterra" agem numa unidade ainda não igualada.
            O chamado "Conselho da Nova Inglaterra" é uma instituição, cujo propósito é desenvolver esforços para promover a coordenação dos governos, na solução dos problemas comuns aos seis Estados. Maine, Vermont, New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut. Essa instituição é o exemplo mais efetivo, de cooperação regional, conhecido no país. Os governos dos seis Estados são responsáveis e mantenedores do Conselho.
            É natural que os meus conceitos sobre a Nova Inglaterra sejam exageradamente apreciativos. Embora já mais de meio século tenha passado, eu ainda posso ver o "meu vale", como se ainda fosse menino. Sentir a ternura dos meus avós, que tanto se deram por mim.
            Como se fosse ontem, ainda vejo o velho juiz Button, em pé no portão do jardim, com o seu chale cinzento sobre os ombros, e ouvir sua respeitosa saudação à minha avó: "Bom dia, Sra. Harris! Vamos ter um lindo dia". Posso vê-lo colocando a mão em concha por trás do ouvido fraco, como se temesse perder alguma palavra da resposta de minha avó. Posso ouvir vovó responder: "Bom dia, Juiz. De fato parece que teremos um dia bonito. "O bom Deus não nos daria um mau dia, Juiz".
            Que gente boa! Que gente boa!