CAPÍTULO XLII

O Fim da Jornada

            Eis que estamos no fim de nossa empreitada. Jean e eu estamos sentados à nossa lareira, tomando chá. Quem desposa uma moça escocesa tem que adquirir o hábito de sentar ao pé da lareira e tomar chá preto e, na verdade, é um final de dia delicioso. Se o chá é bom e o fogo aquece, a gente se alegra e descansa. É um bom jeito de encerrar o dia.
            O bule de chá, à direita, da minha esposa, conserva-se quente por muito tempo e, para ela, é indizível o prazer servi-lo. A muitos amigos ela serviu. Amigos ingleses e de outras nacionalidades. As faíscas subindo pela chaminé, acionadas pelo sopro enérgico do fole que Jean não admite que outros acionem, como também, ao começar o fogo, as brasas estalando de mansinho! . . .
            Rainha do lar e fada do chá, a minha esposa! Chego, às vezes, a pensar que ela excedia à minha avó na devoção que oferece aos seus cuidados com a casa. Considero-me um afortunado e tenho consciência de sê-lo. Esta é a hora e aqui é o lugar certo para devaneios, embora minha mulher ache que os meus devaneios são prelúdios de cochilos e, até, de sono.
            Grande número de amigos, de variadas nacionalidades, nos têm deliciado com as suas visitas. Vêm como conseqüência da minha semeadura em 1905: o primeiro Rotary Club. Ela transformou-se numa frondosa árvore, em cuja sombra é uma delícia viver.
            À noite, costumo relembrar meus avós, o menino que eu fui e o ambiente em que vivi. Ouço a música doce das montanhas, o som ritmado dos machados dos lenhadores; o ruminar pachorrento do gado no pasto, o cacarejar das galinhas, anunciando a sua obra; a ruidosa glória da proclamação do dia pelo galo altivo, o chilreio da passarinhada, o arrulhar melancólico das pombas, lamentando os amores frustrados e, ao longe, no fundo do vale, o pio saudoso da cotovia, chamando o companheiro, enquanto, ao longo dos trilhos, na baixada, a locomotiva soluça, ridiculamente pomposa, tal uma enorme rã inchada, a sua poesia de primavera.
            No verão os gafanhotos e milhares de outros insetos, zumbem numa algaravia ensurdecedora.
            No começo do outono, os grilos e os gafanhotinhos verdes atravessam a noite, anunciando que as folhas do bordo estão mudando de cor, que o cenário logo será outro e que, enquanto a casa estiver dormindo, a místico inverno instalar-se-á silenciosamente no vale e estenderá, lá fora, nos telhados, o lençol branco dos seus cristais de neve, até que, novamente, venha a primavera operar a ressurreição da Natureza.
            Ninguém imagina por quanto tempo estas recordações continuariam a fluir, se não se elevasse uma voz, doce e carinhosa, a interrompê-las, chamando: "Paul, se estiver dormindo, acorde! Tome mais uma xícara de chá. O fogo está apagando, vamo-nos deitar! " Assim flui a vida em Comely Bank.
            Deus dá-me o privilégio de esquecer as fraquezas da humanidade e de fortalecer a minha visão das suas belezas e das suas virtudes!